terça-feira, setembro 27

Quem sou eu? E você quantos é?



Goiânia, 24 de setembro. Tempo frio e lá fora cai chuva. São 18:00 horas e nesse momento ouço - ou melhor, entro em êxtase - com o som da banda Apocalyptica . Estou em casa e, como todo jovem da minha idade, vou fazer, pela primeira vez, meu Orkut. Para ser sincero não queria fazer esse troço, mas meus amigos me falaram que é legal. Você conhece muitas garotas, etc. Tudo ok, já criei minha conta, só falta agora escrever algumas coisas sobre mim. Nome: Alan Ricardo, idade: 19 anos, cidades: Goiânia/Iporá, fuma: não, bebe: não... Uai, que pergunta é essa aqui: quem sou eu?


Hum. Que pergunta difícil. Esse pessoal do Orkut poderia perguntar outra coisa, como, por exemplo, do que você gosta, ou melhor, o que você tem... Mas vem logo perguntar: quem sou eu? Acho que isso é fácil de responder. Vou colocar a letra de uma música famosa ou um pequeno poema e está resolvido o problema. Mas seria melhor mentir. Quem sabe colocar um monte de coisas sobre minha personalidade... Será que estarei, na verdade, mentido? 

Afinal, todos nós mentimos. A mentira está ligada à intencionalidade. Uma coisa é cometer erros e outra bem diferente é ter intenção de mentir. Os erros ocorrem, na maioria das vezes, distantes das relações sociais. Já a mentira é circunstanciada por uma relação social que tenho com o outro. Pensando assim, posso perguntar: sou obrigado a mostrar aos outros tudo que sou, e assim me caracterizar para qualquer um? Se a mentira é, com efeito, uma relação social, compreende-se que minha relação com os outros está liga (primeiramente ) ao vínculo que tenho e/ou quero ter com outra pessoa. Não sou obrigado a publicar meus gostos, ou mesmo, quem sou na realidade, pois as relações que tenho com os outros (e, porque não dizer comigo mesmo) determinam se quero ou não ser transparente. Quando estou mentindo devo meditar, portanto, se estou construindo a relação que  desejo. Mas, o que isso importa? Isso que acabei de falar repete o formalismo de nossa sociedade, não é? Hoje todos querem é ter (Ter é Ser, e Ser é Ter). 

Quem não tem nada, consequentemente, nada é e nada tem para oferecer. No conto infantil: O Pequeno Príncipe, não se pergunta se as pessoas são felizes, mas sim o que tem, qual seu status na sociedade, mas para não cair na areia movediça de reflexões puramente abstratas, de que sociedade estamos falando? É claro, da sociedade capitalista.


Em sua música o repista DJ. Alpiste vociferava que “para você que tem dinheiro tudo é fácil, tá empregado, terminou a primeira faculdade (de Direito, Medicina e seja a bosta que for), tá com um carro zero na garagem, filhos, (...) quanta diferença entre nós dois, mas me diga: se dinheiro é o nome do jogo, se você não tem você é como um tolo, mas não adianta ter educação, quando a meia noite chegar o ladrão”, conclui o repista.

Indo adiante, Marx (1983), analisando o poder do dinheiro na sociedade capitalista, conclui de forma irônica que o que eu sou e posso fazer não é determinado pela minha individualidade. Afinal o que isso significa? Se uma pessoa é feia, poderia comprar a mais bela mulher. Consequentemente, não sou é feia, pois o efeito da feiura é anulado pelo dinheiro. Se é coxo, o dinheiro proporciona quantas pernas quiser; logo deixa de ser coxo. Na realidade das coisas isso é estúpido, mas como poderá o dono do dinheiro ser estúpido, já que o dinheiro é tudo, coisa que nem a traça e ferrugem podem corromper? O dinheiro é o bem supremo, e por isso seu possuidor é bom. 

Internauta, por incrível que pareça, essa pergunta do Orkut está me fazendo meditar em muitas coisas que, até então, estavam encapuzadas. Só que isso não basta para me esclarecer, preciso saber, de fato, se as mentiras são necessárias. Pensando melhor a respeito da mentira, ela pode ser (positivamente) salvadora, garante nossa sobrevivência, mesmo que por um dia. Mas aqui não se trata da mentira conforme os moldes cristãos. Subjetivamente, nós gastamos energias psíquicas monstruosas para conseguirmos viver a cada dia não sendo atormentados pela consciência (Ou inconsciente, segundo Freud) que temos. 

Vivemos, a cada dia, o perigo de tudo dar errado. Isso opera no fundo de nosso psiquismo, temos um mecanismo para manter a estrutura funcionando para garantir que essa consciência não venha à tona. Porque se essa consciência vier à tona, a demanda de sobrevivência que temos, provavelmente, não conseguirá sobreviver frente a demanda de sobrevivência bruta. Ficamos paralisados diante desse pânico. Esse pânico é embutido em nossa experiência de adaptação. Pensando desse modo, a mentira (Mentira caracterológica segundo o psicanalista Ernest Becker) é boa, pois nos ajuda a sobreviver nesse mundo infernal. Se, num único dia (Por exemplo, hoje, na minha tentativa de mentir para o Orkut) conseguir mentir, consequentemente, vou garantir minha sobrevivência. Mas quem não mentir fica paralisado diante do inexorável e do terror que é a existência.

Que Porra, depois de tanto teorizar e refletir sobre quem sou eu não consegui, de fato, me caracterizar. Quem sou eu? Afinal, o que os antigos pensavam em relação ao Ser (Quem sou eu), ou para ser mais específico: o que é o ser? Sabemos que se trata de um verbo, eu sou; tu és; ele é....

Segundo a filósofa Márcia Tiburi, os primeiros filósofos problematizaram a existência, os chamados pré-socráticos, questionavam o princípio fundamental da existência. Para Tales seria a água, para Anaxímenes e Diógenes, seria o ar, enquanto para Hipásio e Heráclito seria o fogo. Para Parmênides a existência era algo imutável e imóvel e que nunca poderia ser conhecida. Para Aristóteles a existência é o Ser, mas ele se apresenta de modo abstrato e intransitivo. 

Falar do ser é como se estivéssemos falando do nada. Se associarmos o Ser com a existência ficamos confusos, pois se penso em minha experiência, me coloco em questão. Podemos pensar a existência de um jeito simples, não é preciso recorrer a muita coisa: assim, pelo simples fato de existir dentro do meu próprio corpo, de fazer uma experiência concreta, da minha própria individualidade, sendo que não posso ser outra pessoa e que, portanto, estou condenado a ser eu mesmo e que quando falo me torno eu mesmo; somente assim posso falar da existência. Pensar a existência - ou, quem sou eu - está relacionado, sobremaneira, pela própria concepção que tenho de minha existência.

Mas a existência, conforme Márcia Tiburi, pode significar uma doença. Doença? Não estamos caindo num pessimismo tosco? Aliás, em nossa cultura o pessimismo sofre certo preconceito, o pessimista é taxado como ruim, mas, de outro lado, o otimista é visto como o bonzinho. Que falta de noção, né? Para Freud, o mal-estar é inerente à condição humana; a humanidade, pensando desse modo, está fadada a ser infeliz, ao menos, a não gozar de uma felicidade plena. Nós somos - virtualmente - inimigos da cultura; se procuramos, com todas as forças, sermos felizes, essa mesma felicidade é momentânea. A felicidade torna-se algo raro, enquanto de outro lado, a infelicidade é constante e frequente.

Mais adiante, o filósofo Arthur Schopenhauer (2005), nos avisa que nenhuma felicidade duradoura pode ser atingida na vida, que se move, como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento. O ideal seria, nesse sentido, negar nossa vontade, não-ser. Schopenhauer, em uma máxima, afirma que: "A essência da existência é a dor". Mas, nesse contexto, o que é a dor? A dor advém de uma experiência que antecipa a morte. A dor não vem do simples fato de não realizarmos nossos desejos, mas vem a todo momento. Experimentamos a todo instante a morte como um suicídio existencial lento. Mas se trata da morte como algo distinto, uma ameaça futura, em que um dia, todos, morreremos. Digo da morte no sentido mais próximo, de pequenas antecipações prévias que sentimentos a todo instante em nosso desgraçado cotidiano. 


A cada realização de nosso querer encontramos,como paradoxo, o tédio, aborrecimento, desejo satisfeito, mas que, então, passamos a não sentir nada. Ou sofremos porque não realizamos nada ou porque realizamos tudo. Que paradoxal! É da condição humana não satisfazer? Não vivemos/existimos apenas no carnal. O carnaval (sim, essa festa que temos todos anos) nunca se realiza nesta compreensão, ela é impossível de se realizar como desejo pleno. Temos satisfações rápidas, mas não é para sempre. É da natureza da existência o sofrer, mas (infelizmente) não é da natureza da existência o gozo?! A felicidade – e o gozo momentâneo - vem em pequenas dozes, mantendo nossas esperanças que um dia a vida será boa(é bom que seja assim,portanto) Aquele que reflete as estruturas do mundo sabe que as coisas nunca serão boas .Ser feliz, isso sim, é um esforço ético (para Lacan o ser feliz é o bem dizer, é a aceitação da vida como ela é, vontade de fazer um mundo melhor , mesmo que a lei desse mundo seja ruim, )


Bebendo em Schopenhauer, o filósofo do século XIX, e em Friedrich Nietzsche (2001),  que nos mostram, categoricamente, a teoria do retorno. Para pensarmos qual o significado da vida no próprio contexto dela, deve-se pensar: será que teria coragem de viver tudo àquilo que já vivi? Será que olhando pra trás poderia repetir, momento a momento, cada segundo da minha existência? Será que poderia viver tudo novamente com o prazer e dor que experimentei? Aquele que consegue dizer sim ao seu próprio passado é um indivíduo que conseguiu superar a doença (Ora, o que é a doença? É a dor de existir, mas que não tira nossa vontade de existir por completo; é a dor de viver, contrabalanceada, pela própria dor de viver)


Depois dessas longas e cansativas reflexões, ainda, não sei me definir. Quem sou eu? Coisa que nem os filósofos, em toda sua intelectualidade e experiência, não conseguiram responder. Dificilmente vou respondê-la. Opa, já são 23:30 da madrugada. Vou dormir; tenho aula amanhã. Depois contínuo, quem sabe, a responder essa pergunta (Se não responder agora, vou levá-la para o resta da minha vida). Concluindo minhas breves reflexões, lanço a pergunta de Dom Juan: quem você quer que eu seja?


Beijo, tchau e me liga!


Referências Bibliográficas:




BECKER, Ernest. A negação da Morte. Rio de Janeiro, Record, 2007.



FREUD, S. El malestar en La cultura. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu Editores, Vol 21, p-57-140,1998.



MARX, Karl. Manuscritos Econômico- Filosóficos. In: FROMM, Erich. O Conceito Marxista do Homem. 8a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.



NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Cia. das Letras,

2000, p. 272.



_________________. A gaia ciência. São Paulo: Cia. das Letras, 2001, p. 64-65;



PRECHT, Richard David. Quem sou eu? E, seu sou, quantos sou?Uma aventura na filosofia. São Paulo: Ediouro,2009.



RIBEIRO, Renato J. O que é mentir ? In: Revista de Filosofia Ciência e Vida, n° 34 ano 2009.



SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e como representação, 1º tomo; Tradução, apresentação, notas e índices de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.



_________________El mundo como voluntad y representación, 2º tomo (complementos); introdução, tradução e notas de Pilar López de Santa Maria. In: Coleção Clássicos de la cultura; Madri: Editorial Trotta SA, 2005.



TIBURA, Márcia. A existência como doença. Café filosófico. Disponível em : http://www.cpflcultura.com.br/site/2009/01/28/inacao-existencia-como-doenca-marcia-tiburi/



VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital: ensaios freudo-marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

______________Ser, Ter ou Aparecer? Disponível em http://informecritica.blogspot.com/2010/11/ser-ter-ou-aparecer-nildo-viana-o-que.html.


_________ Os valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007


_________. Inconsciente coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia: Germial, 2002.

Um comentário:

Adenevaldo Jr disse...

Alan!

Profundo o tema de seu texto. Ultimamente tenho acreditado que somos uma coisa em cada tempo, de modo que nunca chegamos a um consenso do que realmente somos, vivemos em mutação.

O capitalismo é sem dúvida alguma, uma barreira quase intransponível para se encontrar quem realmente somos, pois desvaloriza o ser humano tornando-o uma mercadoria capaz de ser classificada e rotulada.

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