domingo, agosto 21

Muitas histórias dentro da História: o silêncio dos vencidos



Para estudar o passado de um povo, de uma instituição, de uma classe, não basta aceitar ao pé da letra tudo quanto nos deixou a simples tradição escrita. É preciso fazer falar a multidão imensa dos figurantes mundos que enchem o panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes do que os outros, os que apenas escrevem a história.” (Sérgio Buarque de Holanda)


“De 1964 a 1985 ocorreu no Brasil à ditadura militar. Esse período foi seguido pelo governo de cinco militares: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e, por último, Figueiredo. São muitas as razões que levaram a instauração do regime ditatorial, a saber...” Opa! Acho que essa não é a melhor forma de se analisar uma ditadura militar. Aliás, muitos trabalhos, pesquisas e artigos científicos já se preocupam em falar dos fatos que culminaram na ditadura militar e, igualmente, legitimaram por muitos anos o governo dos militares. Mas, então, como explicar um regime totalitário, sem cair num reducionismo, ou mesmo, numa análise, devera às vezes, romanceada? Muitos dos governos daquele período pensavam, utopicamente, que estavam salvando o Brasil, pois era preciso aquele momento de terror. Tudo seria recompensado num período vindouro de nossa história. Para chegar à verdadeira democracia o Brasil tinha que passar por aquilo. Muitos pensavam (e continuam pensando) assim, mas a ditadura trouxe sequelas, até hoje, não cicatrizadas.


São muitas histórias dentro da história. A geração da década de 60 e 70 assistiu um momento de grande efervescência. Os anos rebeldes surgiram como a nova dança mundial da juventude. Anos da pílula anticoncepcional; protestos no Vietnã, dos hippies, dos Beatles, Rolling Stones, de Jim Hendrix e Jamis Joplin; ano do psicodelismo, e por que não falar, da psicanálise de Freud; florescimento das ideias revolucionárias de Marcuse, Althusser, Hermann Hesse. Tempo que foi proibido proibir, na expressão irônica de Sartre. Mas, década de 60, também era a vez de Cuba com Che Guevara e Fidel Castro proclamando a Revolução Cubana. E o Brasil? Para os lá de fora, o Brasil era, simplesmente, mais um país atrasado com um bando de povo mestiço, indolentes, e ainda mais, de índios preguiçosos que não queriam ser escravos, renegando o tão sublime e apreciado trabalho aos moldes europeus.

Calma, essa era a imagem exterior. O Brasil era o Brasil do não. Se de um lado, o Brasil vivia debaixo do sol escaldante e troglodita da ditadura militar. Por outro lado, muitos jovens, diziam não ao regime militar. Era uma revolução dentre da revolução. O tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil invadiu o Brasil. Mas não para por aí. O movimento estudantil - como nunca antes – mostrou-se um poderoso instrumento de contestação. Sim, a juventude queria ganhar o mundo! As passeatas e greves eram proibidas. Vigiar e punir, na voz de Michel Foucault, também estava, inexoravelmente, presente nos aparelhos ideológicos (e repressivos) do estado (sim, com letra minúscula mesmo para repudiar o fetiche dessa máquina, exclusivamente, a serviço dos capitalistas). Mas isso não parava a garotada. Os estudantes iam para as ruas lutar contra o governo que esculhambava a universidade pública e contra o regime militar. A polícia atacava ferozmente. Cassetetes, gás lacrimogêneo, caminhões brucutu eram utilizados para reprimir a sociedade. Os jovens revolucionários respondiam com pedras, bolas de gude e a mais forte de todas as armas: crítica, utópia e política. Isso valia mais do que muitos livros, mais do que dinheiro. Não se perguntavam se as utopias (concretas) eram possíveis, mas perguntavam se a desejamos/queremos como um projeto realizável.

A discussão não se limitava somente nas possibilidades, mas no cerne dos desejos. Portanto, desejar as mudanças já expressa, em seu interior, as possibilidades de sua realização. A luta de classe, e ao lado disso, a consciência de classe mostrava, colericamente, que a (dita) pós-modernidade tinha seus antípodas.

Dentro da história existem muitas outras histórias que, são “ figurantes mundos que enchem o panorama da história e são muitas vezes mais interessantes e mais importantes do que os outros, os que apenas escrevem a história” Em meio a cada jovem que lutava, bravamente, contra ditadura, a história de Wilmar e Laurenice na cidade de Goiânia, capital do Estado de Goiás, destacaram-se.

O dia 12 de julho de 1972 não seria mais um dia normal para os dois. Se bem que, sob uma ditadura a palavra normal de dilui no coração ardente daqueles que anseiam por mudanças. Já estava no crepúsculo da tarde, quando Laurenice esperava, ansiosamente, seu namorado Wilmar no Restaurante Universitário (RU) na Universidade Federal de Goiás (UFG). Dia 12 de julho seria especial para Laurenice, ela estava esperando por uma reunião política naquela noite. Era uma reunião secreta e clandestina. Laurenice iria entrar para o Partidão, o então Partido Comunista. Wilmar, com o sobrenome de Antônio Alves e pseudônimo de Fred, estava fazendo a preparação de sua namorada. Wilmar conhecia muito bem o Partidão, aliás, desde os quatorzes anos participava, assiduamente, do partido. Aos dezenove anos, Wilmar, foi admitido na Rádio Universitária (RU), por meio de concurso, e era noticiarista desde os dezessete anos, antes mesmo de abrir em Goiás o curso de jornalismo. Wilmar, também escrevia para o jornal Tribuna do Oeste e, dirigia nas noites goianas, uma rádio com o boletim da UFG. Mas, Wilmar não queria reproduzir as ideologias da ditadura militar, por isso, escrevia crônicas que eram lidas noutro programa do RU - o Mensageiro. Para ludibriar a censura imposta pela ditadura, ele escrevia em tom metafórico. Simplicidade e o tratamento de temas corriqueiros eram recorrentes nas crônicas de Wilmar.

Mas em 12 de julho não seria mais um dia como todos os outros. Laurenice estava muito ansiosa para jantar sozinha ou esperar pelo seu namorado. Decidiu subir dois lances de escada que os separaram e assistir a transmissão do programa. Minutos depois, um jovem com a aparência de vinte e cinco anos, alto, cabelo curto, vestido com jaqueta e calça jeans, chamou Wilmar e pediu-lhe, cordialmente, que fosse até lá fora para bater um papinho. Wilmar olhou, serenamente para Laurenice e jogou um beijinho. E, depois disso, Wilmar não retornou tão cedo... Os algozes da ditadura o haviam levado para o Cepaigo, estabelecimento onde ficavam os considerados inimigos da pátria. Estando lá escreveu seu último poema declarando, fervorosamente, que lutar por uma sociedade melhor deve ser constante, não importa a situação e o período por mais enevoado que seja. Deve-se, isso sim, permanecer acessa o espírito de luta, igual a labaredas de fogo que dissipam os muitos corações preenchidos pelos icebergs da vida...


Flores no Quintal

As minhas flores, plantadas

(vermelhas, preocupadas)

Lá no fundo do quintal,

Falam de corpo na maca,

Marcado de medo e taca,

Na terra do carnaval.

No ritmo do samba quente,

Como um bater de dentes,

Elas tremem sem cessar.

São Flores encabuladas,

Sensíveis, indignadas

Pelo próprio tremular.

Me fazem sentir no lombo

A dor primeira do tombo

(A rasteira do "porão")

Enquanto a folia, lá fora,

Envolve a gente que chora

A dura falta do pão.

A lembrar que meu recado

Por inteiro não foi dado,

Faltando o grito fatal,

Alertam para o momento

De entoar a todo vento

Do gentio a voz geral.

Da terra da batucada,

Do homem da goleada,

Querem ver um ir e vir

Que o corpo erga da maca

E destrua medo e taca

E deixe a gente sorrir.

Chegará o fim da era

Da vida sem primavera,

Do lombo ardendo em sal;

Virá um tempo diferente

Aos olhos de toda a gente...

E pra flores no quintal...


Sugestões de Leitura:


ALVES, Laurenice Noleto. Wilmar demorou a voltar. In:Salles, Antônio Pinheiro(cord.) A ditadura militar em Goiás: depoimentos para a história. Goiânia: Poligráfica Off-ser e Digital, 2008. (Para baixar: http://www.4shared.com/document/77NN9Lzw/2_Encontro_-_A_Ditadura_Milita.html)


BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Direito à verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007400p. (Para baixar: http://www.4shared.com/document/tVhr89dw/2_Encontro_-_Direito__Memria_e.html)



BITTENCOUR, Circe. Identidade nacional e ensino de História do Brasil. In: KARNAL, Leandro(org), História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2004.

3 comentários:

Alana S. disse...

Nossa, Alan, um excelente texto, muito bem escrito e pertinente. Você fala com espiritualidade, propriedade, com citações encaixadas. E ao final, a poesia fechou com chave de ouro. Me senti muito tocada, parabéns!

Adenevaldo Jr disse...

Meu amigo, que ótimo texto!

Você se aperfeiçoou muito. Como disse a Alana suas pausas e entradas estão muito bem construídas.

O tema é algo que ainda chama a atenção pela loucura e mistério do momento, com toda certeza ainda há muito o que saber e explicar daqueles horrendos anos.

Obrigado pelo texto.

JD - João Damasio disse...

Parabéns! Já é um belo trabalho acadêmico.
Nunca gostei de história na escola pública... só quando entrei na faculdade de jornalismo comecei a entender o contexto em que tudo se encaixava e que isso é história.
Para escrever bem nossas história, é essencial entendermos de onde veio o quê e porquê.
Provou aqui que viagem constante não é só se perder em argumentos, mas se achar no meio deles.

Postar um comentário

Viage mais em:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...