sábado, fevereiro 12

O fim esta logo ali...


Homem erudito, homem prudente, homem alfa, homem dos negócios, homem das certezas infindáveis, eis a figura daquele que sabe que sabe (homo, sapiens, sapiens)!

Ah, quanto tempo faz desde que tudo começou. Foi como piscar os olhos e encontrar uma nova realidade e um novo mundo erigido em sua frente. As lembranças estão arquivadas no livro mais velho da biblioteca, mas ainda é possível lê-lo. Estava ele ali, frente ao grande mar, esperando a derrocada do regime antigo. Tudo estava preparado, o mundo que todos conheciam estava diluindo pouco a pouco, só faltava apenas um pequeno passo. Ele, aquele mesmo chamado de homem da noite de mil anos, foi-se, mergulhando profundamente naquele grande mar de águas frias. Dentro desse mar, ele tornou-se, nada mais, do que: o homem moderno.

Ó, grande mar, devolva este homem!

Tu, grande homem moderno, entregou-se totalmente a esse mar. Foi como ver uma virgem se entregar ao teu amado.

Quando voltarás desse mar tenebroso? Quando?!

Desde que o homem mergulhou nesse mar, muita coisa mudou. O presente século alcançou seu maior píncaro na história da humanidade. Ao mesmo tempo, trouxe consigo o propedêutico fim dos sonhos. O canto da sereia já não é ouviu há bastante tempo.

Esse século traz como balburdio as doutrinas positivas: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso como fim. Para esse homem o único meio de encher o azeite da botija é ter, ter, ter, ter, ter...

Quão terrível século. Crise das utopias, das expectativas, das mudanças, das revoluções e crise da própria vida. Ó, passado, como tu estás virando o único conforto de esperança para esse homem. Ceticismo e niilismo conseguiram, infelizmente, nocautear a águia ianque chamada “fé”. Tempo de trevas. Tempos sombrios são esses!

O que tu, ó grande mar, prometeu para esse homem?

Tu, máquina capitalista, suas promessas invadiram esse o homem, que agora está nu e sozinho nesse terrível mar. Todos aqueles que em ti trabalham não ganham e os que ganham não trabalham. É tudo tão sem sentido. Coisas tão absurdas acabam ficando normais.

Pobre de ti, ó homem. Ficaste prisioneiro de si mesmo. Feiticeiro que já não consegue dominar as potências demoníacas que, outrora, evocara. A palavra fez ao homem muito mais do que ele fez por ela.
Grande homem, o que fizeste com teus jovens? 


Era-se a época das rebeliões, em que teus jovens engajavam-se por suas aspirações. Forças maiores lograram injeta-los uma anestesia. Karl Marx, Marcuse, Sartre, Hegel, Rousseau, e tantos outros, estão no esquecimento. Nossos jovens estão indo de encontro com as terríveis drogas alucinogénicas.

O presente século, mais do que nunca, é o cenário ideal para tocar o réquiem nas notas mais agudas do piano. Vivemos uma época de mudanças ou uma mudança de época? Tu, grande homem moderno, podes responder a tal pergunta? Quantos desejos presos no olhar, escondido na mais fria solidão? Quantos momentos perdidos no ar procurando uma saída para teus problemas? Pode corta-los, homem moderno?

Do outro lado da avenida a esperança, o amor, a felicidade, a liberdade e tudo aquilo que constituem as pedras vivas do ser antropológico, esperam ansiosamente anelar-se a ti, ó grande homem moderno.


Até quando, ó homem moderno, vai viver essa ilusão no grande mar? O plasma que tenta encapuzá-lo está se rasgando, uma nova vida começa a ser formar. Ah, e está para nascer!

De quem será a última palavra?

No bojo da sociedade que gerou seus grilhões, crescem as forças e formas de resistência. Está para existir uma nova realidade calcada na ação concreta daqueles que geram os germes da mudança. Está aí, formando-se no velho século, o novo e glorioso século escrito por aqueles vão à luta. Imbuídos de mística transformadora, lançam suas vozes como libélulas no grande mar.

Estão chamando por ti, ó grande homem moderno. Chamando pela volta daquele homem que, há muito tempo atrás, mergulhou nas águas profundas do mar. Venha logo filho pródigo.

Ó homem, venha correndo, pois a noite chegou. As estrelas do céu sussurram pelo teu retorno. Talvez amanhã, ou depois. Saiba que o tempo é escasso. Teu coração, tão pequeno, geme loucamente. Rasga a cortina e deixa o sol entrar existe muita coisa para concertar.

Venha, ora! Vem pra fora homem moderno! Terás força o bastante para sair desse mar? Ou ficará nesse mar para sempre? A noite está tão fria e o tempo urge como leão: o fim está logo ali.

Joga o cobertor e acende a lareira, porque a vida está voltando.

Autor: Alan Ricardo

5 comentários:

Adenevaldo Jr disse...

Tive que rê-ler esse texto mais de três vezes. Só ai que consegui captar o que Alan esta propondo. Mesmo assim não sei se compreende completamente.

De qualquer forma tenho medo do que o Homem volte pra fora do mar. Por mais que o autor diga que essa é a solução. As ilusões nos impediram de muitas coisas enquanto humanos.

Defendo um desenvolvimento mais humano, mas não que retroceda. Só de ler o passado me choco, quanto mais, voltar ao passado.

Alana S. disse...

Acho que o sentido não é de voltar ao passado. Não é voltar à velha praia de onde mergulhou, mas encontrar uma nova, de areias virgens, à frente. Seria desastroso constatar que, depois de tanto tempo "nadando" no mar turbulento, os homens simplesmente retornassem ao ponto de partida. Descobrir outros pontos, creio eu. Outras praias... Ótimo texto, algo que realmente não pode ser apreendido num primeiro momento, mas muito bonito, muito forte. No começo, me lembrei de algo que Luciano me disse há poucos dias, falando de outro assunto: "em troca do fruto proibido, você perdeu o paraíso"... Não se pode culpar o homem por ter-se jogado ao mar, nem podemos chamar a época anterior de paraíso, mas é importante pensar nos porques, em porque o ser humano ansiava tanto aquelas águas turbulentas... Ótimo,ótimo texto!

Luciano disse...

Um texto realmente muito interessante para se pensar nosso tempo. Penso que questões altamente pertinentes fiquem colocadas tanto nos textos como nos comentários, como o sentido ou não-sentido da história, drogas, valorização do passado, modernidade/"pós-modernidade". Vivemos um momento histórico que me parece extremamente fértil para se indagar acerca de uma revolução e sobre o próprio status de ser humano. A crítica do autor não me parece uma proposição de retorno ao passado, mas uma busca pela própria essência do homem moderno, essência essa que lhe impulsionou ao mar, numa perspectiva, talvez, próxima à do próprio Marshall Berman em sua leitura da modernidade.
Excelente texto!

Karume Maluf disse...

Adorei essa reflexão, que nosso amigo Alan criou.. O que pude perceber breviamente falando é que ele faz uma profunda análise dos valores humanos desde épocas remotas até os dias atuais... E como alguns pré-conceitos de épocas passadas foram se desintegrando ao decorrer dos séculos e que em outros aspectos foram moldados para melhor satisfazer o ser humano.. ele esboça também a questão da moral, da ética, e dos valores próprios e coletivos fazendo uma interessante análise de como o mundo tem sido construindo por meios de utopias e de falsas verdades que o próprio o homem construiu e em cada época vai se solidificando nas mentes humanas da sociedade....
Alan você é um Jovem que me dá orgulho e que me insentiva buscar cada dia mais um sentido verdadeiro e saudavel de viver.. Parabéns por ser essa pessoa maravilhosa...

Diogo Damasceno Pires disse...

Olá Alan,
Parabéns pela reflexão e pela bela e aterrorizante viagem, visto que a grande crise da humanidade, sempre esteve aí para conferirmos a evolução do mundo como o conhecemos e como pretendemos vislumbrá-lo.
Abçs, Diogo.

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