quinta-feira, janeiro 20

EDIÇÃO ESPECIAL

Liberdade que temos x Liberdade que queremos.

Era já quase décima hora noturna, quando o professor perguntou a turma sobre o que eles entendiam sobre liberdade:

- Bem, pessoal. Esse livro que vocês leram fala sobre a liberdade. Mas, além do que o autor mostra no livro, quero saber de vocês, o que é liberdade? Somos livres? O que fazer para sermos, totalmente, livres? Existe, aliás, liberdade ou é uma utopia?

Naquele momento, todos começaram a pensar. Até aqueles que estavam conversando, uniram-se a discussão. Uma voz na frente, ao lado da janela, respondeu:

- Ah, professor. Esse papo de liberdade é coisa do passado. Antigamente, todos eram livres. Naquele tempo, quando não existiam essas coisas de dinheiro, propriedade privada. Todos, desde o pequeno ao grande, podiam usufruir de tudo. As terras, casas, bens materiais, eram compartilhados e distribuídos a todos. Ninguém pegava para si as coisas dos outros. Todos eram livres. Hoje, não existe liberdade. Cada um quer roubar a liberdade do outro usando de diferentes meios.

Aquela resposta ao professor deixou a turma taciturna. Todos olhavam para o professor e falavam baixinho “É mesmo, no passado éramos livres, hoje não temos liberdade”. Mas, ouviram-se outras vozes. Lá, perto do ar condicionado:

- Segundo o filósofo-existencialista Sartre o homem está condenado a ser livre. E mais, segundo o mesmo a liberdade não está circunscrita em obter o que se quis. Ao contrário, liberdade é determinar para si o querer, no sentido de escolher. Tendo uma distinção fundamental entre liberdade de escolha e liberdade de obter, sendo que isso já foi percebido por Descartes, depois pelo estoicismo. Liberdade é sem sobras de dúvida: autonomia de escolha.

A discussão tomou conta de todos. Ouvia-se, de todos os lados, vozes querendo opinar. Alguns tentavam falavam ignorando os outros, os demais com gestos, mas tudo sem sucesso. Até que o professor começou a escrever uma lista para aqueles que quisessem falar.

- Agora é minha vez professor - Falou um rapaz da primeira fila.

- Pois não, pode falar - Replicou o professor.

- Concordo em parte com Sartre, mas como sustentar que somos livres, se, primeiramente, nascemos em uma constituição corpórea, física, em uma determinada família, cidade, época e sociedade, se eu e ninguém escolhemos nada disso? Como explicar isso? Se eu fosse livre queria nascer nos Estados Unidos e, por cima, ser filho de um grande empresário. Acredito e afirmo o mesmo que falou o sociólogo Émile Durkheim, ao elaborar o que ele chamou de fato social. Isto é, que o fato social é algo de vida própria, externo aos membros da sociedade e que exerce sobre seus corações e mentes uma autoridade. Eles são, paulatinamente, internalizados pelos indivíduos através da educação, família, igreja, mídia, jornais etc. E somos, desde crianças, constrangidos a seguir determinadas regras, leis, até isso tornar-se parte de nós mesmos. Normatizando, por fim, nossos comportamentos e maneiras de ser, ou, não-ser, não é professor? Somos coagidos e não livres!

A turma toda, nesse momento, estava insurreta. Uns olhavam para o professor, outros para o relógio da parede - esperando a aula acabar. Aqueles que haviam inscrito para falar desistiram por não terem coragem de dizer algo a mais frente ao que foi falado pelo último aluno. Murmuravam entre si, “quem vai ter coragem de falar agora, depois de tudo isso?”

- Alguém mais desejar falar? - O professor perguntou.

Foi quando ecoou lá no fundo da sala, uma voz angelical solfejando. A menina que começava a falar tinha seus cabelos longos, olhos castanhos, e um rosto sério. Franzindo o cabelo, falou com uma intrepidez fora do comum.

- Esperem um pouco! - Toda turma ao ouvir isso, logo se calou. Só ouvi-se o mastigar dos chicletes.

- Liberdade que temos e liberdade que queremos! Eis o centro da questão - A sala centrou a atenção na fala da garota. Alguns que estavam passando em frente à sala pararam desejosos em ouvir o que a menina tinha a dizer. A menina, então, pronunciou suas palavras:

- A premissa da liberdade situa-se, basicamente: em que cada pessoa possa decidir ou agir segundo a própria determinação. Esse significado é o que encontramos na maioria dos livros, dicionário, revistas, filmes etc. A liberdade, entretanto, é muito mais do que isso. Depois de dizer essas palavras a sala estava um pouco desdenhosa pensando que aquela menina estava falando “abobrinha”. Mesmo assim, estavam curiosos em ouvir o que ela tinha a dizer.

- Antes de saber o significado - Se é que existe - da liberdade em nossos dias, devemos buscar as respostas de algumas perguntas e explicações nos arquivos da História. Pois, o conteúdo e o significado da liberdade muda de acordo com o grau que o homem se percebe e concebe a si mesmo, seu ego, como um ser independente e separado. Pois bem. O período compreendido como Idade Média, ou a grande noite de mil anos, desenvolveu uma cultura e sociedade diferente da nossa. O indivíduo, naquela época, ao que parece, caracterizava-se pela ausência de liberdade individual. Em geral, os membros daquela sociedade tinham reduzidas possibilidades de mudar socialmente de uma classe para outra. Dificilmente, podiam sequer mudar geograficamente de uma cidade ou de um país para outro. Com poucas exceções, tinham de permanecer onde nasciam. A vida particular, econômica e social, era controlada por regras e obrigações. Falando de forma figurada, o homem, a símile, estava como uma criança ao nascer. A criança, mesmo depois do nascimento, encontra-se com o cordão umbilical preso a mãe, ela não é totalmente livre. A criança sente-se ausente de sua individualidade, mas, em contrapartida, têm segurança nos braços da mãe. Criam-se, assim, laços de segurança e a sensação de pertencer que em algum lugar ele esta radicado. São esses laços que ligam a criança à mãe, o membro de uma comunidade primitiva ao clã e à natureza e, no caso, o homem à igreja e sua casta social. Contudo, as mudanças relativamente, súbitas da existência fetal para a humana e a impotência do cordão umbilical marcam a emancipação do bebê do corpo da mãe. Assim, o indivíduo, a partir de então, fica liberto dos vínculos de segurança. Ele defronta com uma tarefa nova: orientar e radicar-se no mundo como um ser livre, individual. Assim como o bebê tem de aprender a andar sozinho, a falar, o home livre também precisa. A liberdade tem um significado diverso daquele que possui antes de ter atingido este estágio. Da mesma forma, aconteceu da passagem da “sociedade medieval” para a “sociedade moderna”.

As palavras que emanavam da boca da garota parecem ter atingindo todos os alunos. Conquanto, todos estavam em um só espírito.

- No limiar da era moderna, o indivíduo emergiu da sociedade feudal e rompeu os vínculos que ao mesmo tempo lhe haviam dado segurança e restringindo-o. O homem descobre a si e aos outros como indivíduos, como entidades isoladas, conhece a Natureza - Que antes o dominava - como algo à parte dele. Todavia, o homem por adquirir essa liberdade possuía um preço a pagar, e quão grande preço é esse!! O homem, então, havia perdido a segurança e o senso de relacionamento que lhes oferecia a estrutura medieval, anos antes. Liberdade e tirania, individualismo e desordem estavam inextricavelmente entrelaçados. Permeando o coração do homem moderno. Todas as relações humanas estavam envenenadas pela feroz luta de vida ou morte pela manutenção do poder e da riqueza.

A sala toda ao ouvir isso estava triste. Era como se um choque microbiano e viral invadisse a sala, penetrando o universo de cada aluno. A Voz da aluna parecia doce como mel, mas com um sabor póstumo feito sal.

- A nova liberdade, essa liberdade que temos hoje. Trouxe consigo um maior sentimento de força e, maior, isolamento, dúvida, ceticismo e, principalmente, medo, isto é, medo à liberdade. O capitalismo libertou o indivíduo. Ele libertou o homem da arregimentação do sistema corporativo; permitiu-lhe firmar seus próprios pés e experimentar a sua sorte no mundo. O indivíduo está livre da opressão dos grilhões da Idade Média, mas simultaneamente está livre daqueles vínculos que costumavam dar-lhe segurança e a sensação de relacionamento. Ele está livre, isto é, sozinho, isolado, ameaçado de todos os lados. O Paraíso está perdido de vez, o indivíduo acha-se, agora só e enfrentando o mundo. Sendo impregnadas do sentimento de insegurança, impotência, dúvida, solidão e angústia. A liberdade que fora antes desejada como uma heroína tem de ser renunciada. E o ser humano tenta fugir de todas as formas dela. O significado da liberdade que temos é parecido com o que foi descrito por Graciliano Ramos em seu livro, Vidas Secas. O casal Fabiano e Sinhá Vitória tinham dois filhos. Um dos seus filhos por acaso ouviu a palavra inferno. Achou bastante bonito aquela palavra e ficava falando o tempo todo. E perguntava, diariamente, aos pais, o que é inferno? Pobre coitado, quando soube do significado não podia aceitar que uma palavra tão bonita (A palavra-coisa de que fala Sartre) pudesse ter um significado tão ruim. Mas... (?)

Quando a menina ia falar suas últimas palavras, o sino havia batido. Interrompendo sua conclusão. Nisso, o professor levantou-se e disse:

- Pessoal, esperem. Amanhã teremos prova sobre esse livro. Portanto, leia ele todo.

Assim que estavam saindo, a última pessoa a ficar foi à menina que havia falado, mas fora interrompida pelo sinal. O professor, abruptamente, lhe falou:

- Amanhã teremos prova do livro que vocês acabaram de ler - Disse isso em um tom distraído.

Logo que a menina estava a sair pela porta quando o professor acrescentou:

- Ah, não se esqueça. Quero ler na sua prova aquele seu “mas”. Certo? - Ao dizer isso a menina deu-lhe um pequeno sorriso.

Como esperado, o professor aplicou a prova no outro dia. Ficou acordado até mais tarde, corrigindo outras provas e ansioso para ler o que a turma tinha escrito sobre liberdade e, especialmente, aquela menina. Fazendo as correções o mais rápido do que estritamente necessário, chegou, por fim, na prova da aluna. Enquanto começava a ler a prova da menina, a luz da lua se infiltrava pelo reflexo da janela. Indo até a janela o professor observou lá fora o crepúsculo que se formou. Voltando para sua mesa, leu toda a prova da menina. Contudo, seu rosto pareceu confuso, espantando. A prova tinha poucas linhas escritas na qual diziam:

- Professor, por tudo o que foi visto e sabido sobre a liberdade. Não posso omitir minha opinião e afirmo o mesmo que fora dito por Karl Marx: “Dirigidos por nossos pastores, encontramo-nos apenas uma vez em companhia da liberdade: no dia do nosso enterro.”

Naquele momento mil perguntas tomaram a mente do professor que silenciosamente refletia em suas introspecções: “Porque ela escreveu somente isso? Será que o... Mas... Parecia ser outra coisa.” O professor buscou entender o motivo daquela frase, chegando à seguinte conclusão: “Acho que o “mas” dela não se resumiu nessa frase. O “mas” que ela queria pronunciar aquele que muitos tentaram expressar, no entanto, sem sucesso. O “mas” significa, além do valor semântico, a oposição contra tudo aquilo que molesta a liberdade. O “mas” exprime uma não aceitação do Status Quo e de tudo aquilo que deixa o homem inerme e isolado. O “mas” é, indubitavelmente e unicamente, a práxis da utopia revolucionária!

Autor: Alan Ricardo.

Referencias Bibliográficas:

FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro, 1974.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2009.

SARTRE, J-P. O ser e o nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 6ª Ed. Petrópolis, Vozes, 782 p.

* Para a realização deste, foram utilizados vários ensaios de cunho acadêmico.

Um comentário:

Alana S. disse...

Que texto, caro Alan, que texto! Nem sei direito o que dizer... Me proporcionou, ao mesmo tempo, uma viagem por todos os conceitos que eu sempre agreguei e relacionei à idéia de liberdade, bem como uma reflexão sobre novas posturas e abordagens filosóficas. Sempre compartilhei da idéia de Bakunin segundo a qual a liberdade consiste numa ausência de coação sobre o indivíduo, mas somos a todo instante confrontados a agir por gostos de outrem, somos a todo instante coagidos. Me lembrei também dos debates dos quais participei nas aulas de Paixão, (Des)Razão e Política no Século XX, justamente sobre essa idéia de liberdade que o capitalismo nos oferece, uma "liberdade" que nada é além da liberdade de compra, de consumo, de ostentação, carregada de valores burgueses. No entanto, há o sentimento de solidão, de vazio. Pretendo escrever algo sobre isso futuramente, comento sobre o assunto quase todos os dias com dois amigos, e é algo que me persegue. Essa falsa liberdade capitalista, apoiada pela presença de um "governo democrático" onde as pessoas pensam ser livres para agir e falar, tudo isso diminui o indivíduo e o prende a grilhões tão poderosos - ou mais - quanto aqueles a que ele se agarrava na Idade Média. Enfim, foi um texto belíssimo, está de parabéns!!!

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