sábado, setembro 3

Os tortuosos caminhos da política brasileira



Os últimos acontecimentos políticos no Brasil se tornaram um verdadeiro furacão abalando de diversas formas a já complexa situação pela qual o país passa. O impedimento da presidente Dilma Rousseff demonstrou um conjunto de falhas e distorções bastante comuns para quem tenta entender alguma coisa do que se passa em solo tupiniquim. Para o brasileiro nativo o fato de o cenário, extremamente fatiado e conservador, da política nacional estar passando por maus momentos, não é novidade nenhuma, na verdade, para os bens avisados, a crise atual já estava anunciada há muitos anos antes do atual boom. A grande surpresa tem sido a capacidade dos ilustres representantes legislativos em inovar suas tramas e esconde-las da população. 

Os episódios dessa catástrofe são um ótimo exemplo para se entender quão diversa é a sociedade brasileira, e o quanto os políticos refletem uma contradição em relação aos anseios éticos e morais esperados dos congressistas. De forma geral, em termos de política, não há que se falar em certo ou errado e sim o que deu razão aos acontecimentos, fato é que, com a desinformação, fica difícil se chegar a alguma conclusão lógica e deduzir que exista alguma racionalidade ou respeito à lei. Para cada absurdo cometido existe um argumento mais esdruxulo, e do jeito que vai, a cada dia que passa, as explicações vão se tornando cada vez mais intoleráveis e distantes da realidade da maioria da população.

Outro aspecto relevante é de que as pessoas pobres, que mais lidam com os resultados catastróficos dos erros políticos, é quem menos tem condições de se interessar criticamente ou atuar por mudanças. Geralmente lutando por saúde, educação e segurança, as pessoas em situação de vulnerabilidade dificilmente conseguem se quer, captar os antagonismos da política de esquerda ou o elitismo da direita. Deficiências sociais propositalmente estruturadas para manter o atraso e a falta de conhecimento geral sobre a situação do país, provocando discursos e posturas políticas que muitas vezes ferem os próprios direitos.

Toda essa desconstrução apenas soma fatores ao que já vem sendo consolidado como parte de uma pequena política, ou da politicagem mesquinha assistida nos diversos espaços em que sobressaem aqueles que trabalham barganhando privilégios próprios. O egoísmo parece ser um mal constante na política, e no caso do Brasil foi institucionalizado pelas elites conservadoras que preservam arduamente a naturalização do desprezo pela mulher, pelo negro, pelo índio e pelas pessoas LGBTT. A polícia talvez seja a principal instituição estatal representante do modo preconceituoso, violento e truculento pelo qual a pequena política age em favor dos grandes e escusos interesses hegemônicos no interior da própria sociedade.  

Diferente do que costuma ecoar por aí, não se pretende defender ou acusar de golpe o afastamento de Dilma. Não é possível sustentar que exista um golpe em execução sem saber exatamente quem está no comando ou contra quem efetivamente está sendo mirado. Muitos são os discursos, as narrativas e as desculpas, mas muito pouco ou quase nada se consegue explicar sobre o que vem acontecendo nos bastidores políticos. Como já foi dito, a política parece ter cortado laços com a lógica, a racionalidade e o bom senso, o que impera e determina a tomada de partido não é o esclarecimento, mas o temor, o medo e a emoção.

A dicotomia radical entre as posturas políticas só atrapalha ainda mais o entendimento das causas e consequências obscurecendo e relativizando questionamentos, aplicando uma ideologia fascista de padronização do entendimento e do sentimento nacional. O mundo mudou e o Brasil já não é o mesmo, mas as formas de entende-lo e discuti-lo continuam as mesmas da década de 1980, generalizando comportamentos e fazendo avançar políticas conservadoras transvestidas de progressistas. Não é a vida que tem que precisa caber na política, é a política que tem de caber na vida, de nada adianta rivalidades e estranhamentos por causa de diferenças ou mesmo da indecisão, enquanto a maioria da população se digladia o status quo permanece inalterado.

Não é na síntese ou na unidade indissolúvel que encontraremos a solução, mas é na diversidade, no acolhimento das pluralidades que construiremos um país democrático e para todos. Nem é a política feita nos grandes cenários que deve determinar a forma como as pessoas se relacionam e trocam opinião. É no conjunto das lutas diretas e dos males que a todos acometem coletivamente, que teremos condições de encontrar caminhos possíveis e realmente inovadores.            
      

segunda-feira, agosto 29

Viver é Imprevisível




Eu não posso só gostar?
Sem ter medo do que pode acontecer?
Não dá pra viver sem expectativas?
Sem pensar se eu tenho de concordar?

Viver questionando o que não aprendi a respeitar
Respeitando o que não aprendi a questionar
Implicando com o que não consigo mudar
Tentando mudar o que deveria permanecer

Porque simplesmente não aceitamos as coisas do jeito que são?
Será que a vida teria mais sentido se fosse diferente?
Porque temos tanto que complicar as coisas?
Será que nunca encontraremos uma solução?

Passamos a vida toda reclamando e buscando
Sem perceber que o fim só nos leva de volta ao começo
Demorando tempo de mais pra se dar conta
Que o tempo passa, nada é eterno

Será que não dava só pra deixar passar?
Sem ter medo de não saber?
Será que poderíamos evitar esses erros tão previsíveis?
Sem ter que começar a planejar?

Sem se preocupar com a solução de problemas que não existem
Criando explicações para o que não podemos sentir ou viver
Desperdiçando tempo com dúvidas estúpidas
Sempre se afogando no raso e
Morrendo com sede de água

segunda-feira, agosto 15

Surrealismo


A Revista Omni (1978-1995) foi uma revista de ciência e ficção científica publicada nos EUA e no Reino Unido. Ela continha artigos sobre ciência, parapsicologia, ficção científica e fantasia. 

As colagens digitais foram feitas por Ayham Jabr com materiais publicados pela revista.









segunda-feira, agosto 1

O que Significa ser Gay



 
Incrivelmente o significado das palavras continua em disputa. Mesmo que regularmente o vocabulário atualize expressões e palavras, o significado que certas palavras adquirem no sentido prático é constantemente utilizado com mais de um objetivo, demonstrando uma tentativa de distorção e o jogo de poder existente sobre algumas palavras. Essa distorção e a capacidade mutante que certas palavras adquirem com o passar do tempo, demonstra entre outras coisas, os conflitos e as competições ideológicas que tem tentado dominar a opinião pública.

Dessa forma, tem crescido de forma assustadora o emprego errado, supostamente conotativo, ligado a algum sentido depreciativo, que a palavra gay tem adquirido. Além da histórica negação e invisibilidade que a homossexualidade teve e continua tendo, em razão do preconceito assombrado pela religião, existem diversas práticas negatórias preconcebidas, cativadas como traço cultural. Os interesses comerciais e políticos se aproveitam dessa segregação, fragmentando e alimentando ainda mais o estereotipo do homossexual dentro da sociedade e influenciando pessoas principalmente através da mídia.

O resultado mais direto de toda essa corrida pela desqualificação, de uma característica natural no ser humano e diversas outras espécies vivas, é a completa distorção sobre quem são ou como deveriam ser as pessoas homossexuais. Espaços segregacionistas que estipulam ambientes destinados a convivência de quem não se encaixa. Contudo, numa tentativa de origem ainda incerta de mudar essa concepção determinista sobre quem são as pessoas homossexuais, é que o termo gay ganhou destaque.

Talvez pelas diversas conotações que lembram um comportamento alegre, de vivacidade, associado a pessoas assim, é que o termo gay é geralmente usado com o mesmo significado de homossexual. Em comparação com a repressão observada em determinados lugares e em tempos remotos, a coerção e marginalização de pessoas gays na atualidade do início do século XXI, diminuiu bastante, mas ainda está muito distante de uma atenção realmente coerente com a realidade presenciada na sociedade.

Muitas pessoas gays não querem se quer serem identificadas. A maioria não se sente segura admitindo suas preferências ou experiências de vida, com medo da exclusão ainda praticada e repetida em muitos círculos sociais. Vivemos num momento histórico em que ainda é colocado como opção, ou simplesmente como rebeldia inócua, a identificação gay, sem que se tenha consideração por toda a história, e seja realmente exercitado o sentido humanitário e racional das religiões ou buscado pela política.

Por algum motivo aparentemente imperceptível, cresce também um tipo de concordância em relação às práticas normais para cada grupo. Como se fosse possível escalonar e preconceber comportamentos íntimos e de amor, observados na história humana, de forma dada ou prefixada ou determinada antes mesmo de atingir consciência de si ou do outro. Existem muitos sentidos sendo agregados a palavra gay, fazendo perder sua originalidade que remete a um espírito integrador de relações homo afetivas e sexuais na sociedade.

Não é preciso que só as pessoas gays lutem por um sentido libertador e digno para a palavra, mas que todas as pessoas sejam capazes de compreender o necessário respeito (Muito mais que tolerância) a essa realidade que sempre esteve presente, mas sempre em situação de invisibilidade. Existe todo um universo desconhecido que quebra totalmente as concepções morais de gênero e sexualidade, demonstrando que existe muito mais elementos identitários que são ignorados e marginalizados. Sem ser capaz de estabelecer pontes com o diferente, a sociedade caminha para uma vontade padronizadora que violenta e submete o que ela não entende.

Existem gays de todas as cores, em todas as profissões, de vários jeitos, não dá para chegar em algum consenso sobre quem são ou como deveriam ser, são apenas pessoas tentando ser felizes. E ainda que a sociedade permaneça ignorando um tratamento justo e digno a essas pessoas, isso não vai fazer cessar a importância e relevância do assunto para uma sociedade fraterna, igualitária e solidária. É preciso cada vez mais resistir ao conceito que é enfiado goela abaixo sobre pessoas e pessoas gays, a vida não cabe numa salada de letrinhas com significados claramente definidos.             

Viage mais em:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...