Homem erudito, homem prudente, homem alfa, homem dos negócios, homem das certezas infindáveis, eis a figura daquele que sabe que sabe (homo, sapiens, sapiens)!
Ah, quanto tempo faz desde que tudo começou. Foi como piscar os olhos e encontrar uma nova realidade e um novo mundo erigido em sua frente. As lembranças estão arquivadas no livro mais velho da biblioteca, mas ainda é possível lê-lo. Estava ele ali, frente ao grande mar, esperando a derrocada do regime antigo. Tudo estava preparado, o mundo que todos conheciam estava diluindo pouco a pouco, só faltava apenas um pequeno passo. Ele, aquele mesmo chamado de homem da noite de mil anos, foi-se, mergulhando profundamente naquele grande mar de águas frias. Dentro desse mar, ele tornou-se, nada mais, do que: o homem moderno.
Ó, grande mar, devolva este homem!
Tu, grande homem moderno, entregou-se totalmente a esse mar. Foi como ver uma virgem se entregar ao teu amado.
Quando voltarás desse mar tenebroso? Quando?!
Desde que o homem mergulhou nesse mar, muita coisa mudou. O presente século alcançou seu maior píncaro na história da humanidade. Ao mesmo tempo, trouxe consigo o propedêutico fim dos sonhos. O canto da sereia já não é ouviu há bastante tempo.
Esse século traz como balburdio as doutrinas positivas: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso como fim. Para esse homem o único meio de encher o azeite da botija é ter, ter, ter, ter, ter...
Quão terrível século. Crise das utopias, das expectativas, das mudanças, das revoluções e crise da própria vida. Ó, passado, como tu estás virando o único conforto de esperança para esse homem. Ceticismo e niilismo conseguiram, infelizmente, nocautear a águia ianque chamada “fé”. Tempo de trevas. Tempos sombrios são esses!
O que tu, ó grande mar, prometeu para esse homem?
Tu, máquina capitalista, suas promessas invadiram esse o homem, que agora está nu e sozinho nesse terrível mar. Todos aqueles que em ti trabalham não ganham e os que ganham não trabalham. É tudo tão sem sentido. Coisas tão absurdas acabam ficando normais.
Pobre de ti, ó homem. Ficaste prisioneiro de si mesmo. Feiticeiro que já não consegue dominar as potências demoníacas que, outrora, evocara. A palavra fez ao homem muito mais do que ele fez por ela.
Grande homem, o que fizeste com teus jovens?
Era-se a época das rebeliões, em que teus jovens engajavam-se por suas aspirações. Forças maiores lograram injeta-los uma anestesia. Karl Marx, Marcuse, Sartre, Hegel, Rousseau, e tantos outros, estão no esquecimento. Nossos jovens estão indo de encontro com as terríveis drogas alucinogénicas.
O presente século, mais do que nunca, é o cenário ideal para tocar o réquiem nas notas mais agudas do piano. Vivemos uma época de mudanças ou uma mudança de época? Tu, grande homem moderno, podes responder a tal pergunta? Quantos desejos presos no olhar, escondido na mais fria solidão? Quantos momentos perdidos no ar procurando uma saída para teus problemas? Pode corta-los, homem moderno?
Do outro lado da avenida a esperança, o amor, a felicidade, a liberdade e tudo aquilo que constituem as pedras vivas do ser antropológico, esperam ansiosamente anelar-se a ti, ó grande homem moderno.
Até quando, ó homem moderno, vai viver essa ilusão no grande mar? O plasma que tenta encapuzá-lo está se rasgando, uma nova vida começa a ser formar. Ah, e está para nascer!
De quem será a última palavra?
No bojo da sociedade que gerou seus grilhões, crescem as forças e formas de resistência. Está para existir uma nova realidade calcada na ação concreta daqueles que geram os germes da mudança. Está aí, formando-se no velho século, o novo e glorioso século escrito por aqueles vão à luta. Imbuídos de mística transformadora, lançam suas vozes como libélulas no grande mar.
Estão chamando por ti, ó grande homem moderno. Chamando pela volta daquele homem que, há muito tempo atrás, mergulhou nas águas profundas do mar. Venha logo filho pródigo.
Ó homem, venha correndo, pois a noite chegou. As estrelas do céu sussurram pelo teu retorno. Talvez amanhã, ou depois. Saiba que o tempo é escasso. Teu coração, tão pequeno, geme loucamente. Rasga a cortina e deixa o sol entrar existe muita coisa para concertar.
Venha, ora! Vem pra fora homem moderno! Terás força o bastante para sair desse mar? Ou ficará nesse mar para sempre? A noite está tão fria e o tempo urge como leão: o fim está logo ali.
Joga o cobertor e acende a lareira, porque a vida está voltando.
Autor: Alan Ricardo