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sexta-feira, dezembro 2

A alucinante trilogia do Príncipe Ronnie Von





O cantor carioca Ronnie Von, conhecido como o príncipe loiro de olhos azuis dos anos 1960 e 70 que disputou a atenção do público com Roberto Carlos no mesmo período, gravou principalmente canções românticas e baladas made in radio, mas durante três anos consecutivos - 1968/70 - lançou três discos legendários e nostálgicos. A trilogia tem uma atmosfera bastante interligada e que se repete com diferentes inovações e provocações auditivas.   

Com letras extremamente curiosas, introspectivas e atemporais, a musicalidade da trilogia remete ao ambiente característico das antigas gravações do Tropicalismo. O primeiro disco lançado em 1968 com o homônimo título Ronnie Von possui diferentes referencias da musicalidade brasileira e conta com uma pegada que mistura solos de guitarra e um canto manso, mas rebelde. A faixa Anarquia dá o tom no primeiro disco e surpreende compondo aquele tipo de canção inesquecível e de conotação intencionalmente libertária, lançada originalmente durante a época do regime militar brasileiro, o single continua bastante atual.   

O segundo disco lançado em 1969 - A Misteriosa Luta do Reino do Parassempre Contra o Império do Nunca Mais, tem regravações internacionais e outras faixas que literalmente grudam na parede da memória pela preciosidade. O terceiro e último disco lançado em 1970 e intitulado A Máquina Voadora fazia menção a uma das paixões do cantor, a aviação. Os temas aparentemente confusos falam de diferentes experiências e sensações comuns a todas pessoas de forma bastante criativa, misturando elementos do rock, do acústico, com falas e palavras certeiras em sentenças que parecem sem sentido e são fundidas com o melodrama característico da bossa nova.

Apesar da baixa vendagem quando foram lançados pela primeira vez, o que foi considerado um verdadeiro fracasso que quase arruinou a carreira de Ronnie, atualmente os discos são verdadeiras relíquias alvos de colecionadores e comercializados a $300 dólares em sites gringos. Em 2013 a trilogia foi relançada relegando a trilogia o status de itens da cultura cult, inclusive sendo capaz de reavaliar a obra produzida pelo cantor nesse período, mas só é possível encontrar a versão remasterizada em vinil. 

Para quem ficar curioso(a) para ouvir, basta fazer uma busca no Youtube que conseguirá encontrar algumas versões compartilhadas por usuários.  

domingo, outubro 16

Amor Egoísta



 
Para muitos, amar significa posse. O poder de determinar a vida de outra pessoa e com isso provar o seu amor. Como se essa disciplina pelo comportamento dos outros pudesse transmitir compromisso e dedicação a uma relação. Pensar na vida do outro e persuadir a tomada de decisões pessoais é uma falácia que já provou sua fragilidade. Cada pessoa acredita no que quer e faz dar certo independente de ser o mais racional ou melhor para as outras pessoas.

Para alguns amar vem precedido da ausência de intimidade. Sem autonomia para ter pensamentos contrários ou agir com autonomia. É tudo devoção. De repente a vida se confunde com a identidade de outra pessoa, a responsabilidade se torna mútua e ocorre a transmutação da própria identidade com um outro alguém. Decidir algo que lhe atinge deixa de ser uma questão intima e passa a ser escolha coletiva. Muitos se esforçam por esse tipo de relacionamento não porque realmente é eficaz, mas porque aprenderam que é a única forma de fazer uma relação dar certo.

O medo de ter opinião em uma relação não significa amor, mas devoção. Uma devoção que busca atingir os interesses de outras pessoas, um sentimento egoísta de satisfação individual pela anuência do outro. Por isso casamentos infelizes, amargos e incompletos se perpetuam mesmo que seus nubentes permaneçam insatisfeitos e terrivelmente frustrados. A liberdade assusta porque exige que a cada dia seja necessário um novo limite a desbravar.

Casamentos nem sempre são referências de um relacionamento saudável, porque desde seu concebimento não foram pensados como uma forma de permitir o exercício das vontades pessoais. O que existe é resultado de uma concepção antiga, de quando os relacionamentos eram apenas forma de ampliar o poder econômico e prestígio pessoal unindo reinos e dinastias. Essa forma de se relacionar é extremamente nociva aquela necessidade que toda pessoa tem de se descobrir e se reinventar no mundo, grande parte de quem se casa se prendem tanto a sonhos de outras pessoas que se esquecem de sonhar os seus próprios.

Aprender apenas uma forma de demonstrar afeto limita a percepção de amar e conduz a perca dos próprios gostos, desejos e interesses. A natureza não segue o protocolo da civilidade humana. Ocupar o papel feminino ou masculino de uma relação não determina uma relação amorosa. Amar não se limita ao padrão bíblico hegemônico. Opostos e semelhantes se atraem e não há predisposição cósmica, apenas interesse. Pessoas negras, brancas, ricas, pobres, altas e baixas não precisam seguir uma lista de comportamentos amáveis para alcançar a felicidade. Os padrões sociais não conseguem atingir a realidade e sua diversidade por conta de sua superficialidade.

Nem de longe amar significa apenas palavras de carinho ou noites de amasso.  Amar também não significa “ter” ou “ser” de alguém, muito menos permitir a intromissão de outros em sua vida particular. Infelizmente a receita bíblica de eterna e irrestrita devoção não é suficiente para um relacionamento feliz.


Amar encontra um significado particular para cada pessoa por isso cada pessoa tem sua forma peculiar de se sentir amada e de demonstrar seu afeto. Atos de amor são diferentes para cada pessoa da mesma forma que nossa aparência. Dar presentes, esconder a verdade ou fingir respeito são parte do que algumas pessoas esperam de quem lhe ama, mas isso é apenas o que é ensinado pela mídia comercial. Amar é um ato de rebeldia que começa com consigo mesmo e que depois pode ser direcionado a outras pessoas.  

Nascemos sozinhos, apenas somos adotados pelos nossos pais até a melhor idade para continuar a caminhada, sozinhos. A dependência é natural, mas alimenta-la com devoções foge do equilíbrio e rouba parte da própria identidade. Relacionamentos de amor não roubam, apenas permitem trocas. Não há perca de si mesmo. Não existe guerra quando se ama. Não há disputa, nem poder.

quarta-feira, julho 20

Unidos Somos Fortes



 
A chamada civilidade organiza a sociedade por regramentos que comprometem hábitos e condutas, criminalizando o ócio e a diversão, eliminando as possibilidades de expressão e liberdade numa tentativa de assegurar a igualdade entre todos. Mesmo com todas as limitações impostas pelos ordenamentos sociais e morais, persiste na natureza humana o ímpeto da rebeldia, da contradição e da diferença. Se socialmente somos obrigados a seguir determinados regramentos em nome da paz social, coexistem diversas possibilidades de quebrar esses ambientes de esterilidade e padronização.

E é justamente nos espaços onde mais somos pressionados pela ordem social que podemos reverter as bases da imposição. A rua é o maior signo da manifestação pública e oferece às coletividades a possibilidade de subversão da ordem imposta toda vez que é ocupada. Quando reunidos entre semelhantes o que era proibido se torna permitido, passando da ilegalidade para a total visibilidade social. As festas, manifestações e outras atividades realizadas nas ruas são capazes de criar verdadeiras bolhas dentro do ordenamento social, permitindo que novas liberdades aflorem.

A capacidade de inflar a chamada ordem mundial/local estabelece um verdadeiro universo paralelo entre a esterilidade da vida normal e a pluralidade da diversidade. Toda vez que acontece uma festa de rua, instala-se a possibilidade da coexistência pacifica entre os diferentes, ao mesmo tempo em que os riscos de contravenções aumentam. Da mesma forma que uma coletividade é capaz de coagir e impor determinado comportamento, outra coletividade também é capaz de usar estrategicamente os espaços públicos para se expressar livremente.

Quando surgem essas bolhas dentro da sociedade, significa que marginalizados e excluídos podem finalmente ocupar os espaços protegidos e frequentados pelas classes sociais privilegiadas. A antiga máxima de que a coletividade faz a força pode, nesse caso, até mesmo contrariar a afirmação de que a qualidade supera a quantidade. Talvez esteja falando de termos que não podem ser incluídos na mesma frase pelos seus sentidos discordantes, mas o que realmente importa, é perceber a força que temos quando permanecemos juntos por uma mesma causa.

A desregulação causada pela força coletiva pode favorecer o aumento da imposição, da mesma forma que pode potencializar a pluralidade das liberdades. Se a união faz a força, ela também pode motivar a continuidade e reforma das estruturas de imposição e coerção ou provocar uma revolução. Toda vez que formos confrontados pela força de um grupo unido, seremos igualmente obrigados a prestar atenção nas suas compreensões e explicações da vida. Pelo bem ou pelo mal, toda coletividade unida é capaz de favorecer espaços de poder e reflexividade.   

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