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sexta-feira, janeiro 15

Os Desencantos do Amor Livre na Modernidade





Já imaginou relacionar-se sem ter que colocar ninguém no centro de sua vida? Quer dizer, sem ser preciso viver pensando em ter que gostar apenas de uma pessoa sem se sentir culpado? Isso é, a grande maioria talvez já tenha pensado sobre o assunto e mesmo que não, é bem provável que já tenha passado por alguma situação parecida. Até porque, no que diz respeito a sentimento e desejo, não é preciso nenhuma autorização para acontecer, chega a ser bastante comum pessoas que apesar de namorar ou se casar, gostam e ficam com outras pessoas, que não uma única. 

Dessa forma fica mais fácil entender o que é amor livre e não é difícil encontrar pessoas que apesar de viver relacionamentos monogâmicos se dizem adeptas ou favoráveis à liberdade de estar com outras pessoas também. A própria expressão ‘amor livre’ deixa no ar seu significado, que de forma objetiva, quer dizer a liberdade de se relacionar sem exclusividade com ninguém. O problema surge quando se tenta colocar isso em prática. Muitas pessoas imediatamente ligam essa ideia à promiscuidade, o que de longe traduz seu real sentido e intenção.  

Socialmente, a cultura monoteísta defendida pela religião e tutelada pelo Estado, não reconhecem os relacionamentos abertos como dignos. Sua principal motivação está ligada a visões patriarcais, patrimoniais e de unicidade em compreender a realidade. A própria existência da família moderna se dá em contextos monogâmicos para a vida inteira, o que não necessariamente pressupõe a existência de amor. Mesmo que as relações privativas permaneçam sendo a forma mais usual e naturalizada de se relacionar, na prática encontra diversos dilemas.

A traição é o maior medo de quem pensa em começar um relacionamento. Isso porque os sentimentos e pensamentos de possessão, controle e hierarquia predominam sobre a espontaneidade, exigindo uma constante e infinita entrega. Apesar de sua complexidade, a traição se tornou tão previsível, que é sempre atribuída ao homem e reconhecida como inevitável pelas mulheres. Nem por isso, namoros e casamentos deixam de existir, essas relações, por mais desgastantes e desiguais, ainda que moldadas por interesses patrimoniais e sociais, tornaram-se tão comuns, que discutir suas limitações é uma afronta à sacralidade e, portanto, impossível de serem ‘consertadas’. Por isso mesmo, dificilmente alcançam a pureza e sinceridade naturais do amor.  

O respeito aos limites do próximo, jamais serviu de parâmetro para as relações a dois, isso porque, nos casamentos a regra é a completa devoção à vida do outro e a exigência de sua reciprocidade como sinal de alguma expressividade de amor. Por mais que a máxima de que ‘ninguém é de ninguém’ seja uma verdade inconsciente, a quebra com o padrão do amor romântico e idealista das relações, continua sendo um movimento associado a revolta imotivada e pejorativa. Geralmente quem defende a liberdade no amor, é recebido como anormal, aquele que pretende acabar com a família e promover algum tipo de libertinagem ou sacanagem.  

Se por um lado ainda é preciso lutar por amor livre, por outro, se reconhece que as experiências de relacionamento que temos hoje, não são livres. Muito pelo contrário, estão cristalizadas com valores distorcidos acerca do que é amor e como demonstra-lo. O machismo e o sexismo permanecem fortes e responsáveis por violências institucionalizadas contra as mulheres e os próprios homens, determinando comportamentos irracionais, criando cativeiros e fortalecendo preconceitos. Toda essa naturalização do amor romântico, descaracteriza o que não seja igual às relações do amor livre ou do poliamor.   

O amor livre não pode ser apontado como única solução para traições ou para a total igualdade entre as pessoas, antes, é preciso avançar sobre o aspecto cultural. Descontruir valores morais é tão ou mais importante que abrir espaço para manifestações de amor livre. Isso porque, se por um lado é possível estabelecer formas abertas e mais humanas de relacionamentos, por outro, é preciso combater a hipocrisia moralista. Por mais natural que possa parecer, o amor livre encontra diversas dificuldades para seu exercício por causa do preconceito. Principalmente porque reconhecer o ser humano na finitude de sua natureza, também significa garantir a mesma liberdade para homens e mulheres.

Viver relações abertas está mais ligado a concepção de amor próprio necessariamente, do que à devoção ao outro. O respeito primeiro começa em si consigo e depois para o outro com o outro, essa compreensão íntima é o que permite estabelecer relações que apesar de não se pautar na exclusividade, cria vínculos mais fortes do que a fidelidade do corpo ou da mente são capazes. O único princípio orientador do amor livre é a solidariedade ao próximo, não importando se estabelece relações parcialmente ou totalmente centralizadas, talvez por isso mesmo, continue sendo uma ideia mais bonita nos livros e imaginário anarquista, do que na própria realidade. 

quinta-feira, abril 19

A insustentável leveza do ser



É estranho ou, até mesmo, ilógico se imaginar voando sem equipamentos construídos, tecnologicamente, pelo homem ( aviões, paraquedas, etc). Sem esses equipamentos, a ideia de voar é completamente descartada. Mas, como consenso geral, o ator de voar, é relegado a filmes e, não muito distante, as histórias em quadrinhos (HQs). Enfim, como se percebe, voar é transportado, artificialmente, para meras produções de cunho “fictício”. Voar, diga-se de passagem, em todos os casos, implica um sentimento de liberdade bastante aquém da condição humana? Fácil de perguntar, mas, difícil de ser respondido.

No entanto, deparamo-nos, cotidianamente, com situações que descortinam, por completo, toda esta concepção sobre o ator de voar. Pois, na verdade, podemos voar ( obviamente, não como os pássaros), mas de uma forma singular e extraordinária: pelo nosso ser. O voar, pensando nesta perspectiva, se apresenta de forma diferente, exige, como requisito básico, o desvencilhamento de nossos desejos mais profundos. Diante disso, duas perspectivas, geralmente contraditórias, se cruzam e se relacionam mutuamente: a leveza e o peso.

Dois polos tão díspares, mas, que, se entrelaçam na formação de nosso ser. Por isso, há, quase sempre, em nossas vidas momentos que ofuscam-nos, levando, a viver com o peso – lastimável ou prazeroso- de nosso ser. São, aliás, momentos de intensas realizações. Sentimo-nos, com o mais pesado fardo. No entanto, ele é suportável, pois, nos traz felicidade e, por hipótese alguma, queremos perde essa sensação gloriosa. Pensamos mais profundamente, e essencialmente, é esse peso inexorável que nos deixa mais próxima da terra, de nossas vidas e faz acreditar que somos humanos ( demasiado humano).

Mas, como pano de fundo, há momentos que o nosso ser fica livre desses fardos, o nosso corpo se torna mais leve que o ar. Já não ficamos presos a um corpo físico, como também, aprisionados pelos seus desejos. Voamos, nos distanciamos da terra. Alcançamos as nuvens laranjadas do crepúsculo que, como nós, estão ali temporariamente, podendo, a qualquer momento, se dissolver ou mudar de lugar. Porém, como o superman, às vezes, a criptonita verde está instalada em nosso ser, perdemos essa leveza e voltamos, paradoxalmente, para a nossa condição de outrora: o peso. A gravidade, portanto, nos domina.

O que escolher: o peso ou a leveza?

Tudo (Não importa a circunstancia, peso ou leveza) pode-se acabar a qualquer momento. Eis aí, afinal, a harmonia de contrários que não cessam de se transformar constantemente, eis aí, finalmente, o que Milan Kundera chamou , em seu romance, de “A insustentável leveza do ser”.

sábado, março 10

O Brasil de A.C. era mais moderno que hoje


Existem coisas mal explicadas em nossa sociedade. Como por exemplo, o que de fato é moderno? Pelo que se comumente sabe, trata-se de ter o carro do ano, de roupas com tecidos estrangeiros e um corpo magro, delirante e sensual. Refletindo melhor, isso é o que se vende. É o estereotipo que rende milhões a pouquíssimas pessoas. A idéia da modernidade se apresenta com a adoção do pensamento racional e do antropocentrismo. Mas haverá caráter racional e de valorização do homem dentro de nossa sociedade?

Os índios, não os do século XXI, os realmente modernos e que existiram antes de Portugal achar que era dono do Brasil. Esses sim refletiam a modernidade. Não trabalhavam excessivamente porque afinal de contas eram racionais e sabiam que a morte chega para todos; não adianta nada trabalhar arduamente e depois morrer. Não possuíam armas ou bombas atômicas. Suas crianças não possuíam apenas os pais naturais. A aldeia como um todo era pai e mãe ao mesmo tempo. Dentro da lógica tradicional isso é uma questão habitual, usual, todos sabem. Mas se formos pensar na dialética que há entre o que era nosso pais e no que se tornou, perceberemos que a idéia de modernidade atual é algo contraditório e cheio de ilusão.

Andavam nus, mostravam seu corpo a todo mundo e não havia quem os condenasse por ordem divina ou por atentado ao pudor. O sexo se praticava na aldeia e dependendo da situação em qualquer lugar. Não havia exagero. Sua vida era pacata e seus deuses não determinavam o futuro de ninguém. A calma, a paciência e a sinceridade é que determinava o ritmo das atividades. O tempo não era controlado. Nada vinha de fora. Tudo o que precisavam era produzido por eles mesmos, até mesmo sua própria inteligência e tecnologia. O alimento era compartilhado junto com as obrigações e por isso ninguém passava fome.

Os homens não possuíam o espírito de sexo dominante e as mulheres jamais foram tratadas como sexo frágil. A divisão de tarefas era determinada pelo sexo, mas isso não impedia exceções. Homens e mulheres respeitavam a natureza. Não havia o desejo de um sobre o outro nem de acumulo. A arte era simbolizada pelos seus próprios corpos. Nem sabiam o que eram mendigos, terno ou vinho.

As mulheres gordas não eram vistas com desprezo. Os homens tinham sua natureza respeitada. O canibalismo era medonho, no entanto todos o conheciam. Não omitiam essa característica ou faziam de conta que era uma ideologia e que todos eram santos. Não havia hipocrisia em excesso. A própria sociedade não ignorava seu lado podre. Se é que assim pensavam a respeito de sua cultura e suas tradições. Como já afirmei, jamais olhavam para si ou seu semelhante com preconceito.

Como em qualquer comunidade humana, havia tribos anti-sociais e ignorantes. Em geral haviam compreendido que não há uma luta a ser travada com a Natureza. Que se trata de um ser vivo como outro qualquer e que se pode obter benefícios se as leis de convivência e respeito forem mantidas. As músicas eram produto de sua própria cultura, não careciam de um dicionário para entender o que ouviam.  

A mídia era o canto de pássaros. Não chegaram ao ponto de ter de transformar areia em vidro, petróleo em plástico e pedras em cimento. Souberam por milênios manter o ambiente do mesmo jeito que estava mesmo antes de nascerem. Respeitaram o seu ambiente e aprenderam remédios e outras dezenas formas de viver bem sem ser preciso escravizar alguém.

Não precisavam ler livros para arrumar um emprego ou aprender a respeitar. Sentiam e se orientavam pela intuição. Pelo bom senso. O conforto era estar vivo, com saúde e em paz. Desconsideraram a importância de ter ao invés de ser. Pelo contrário, foram e não tiveram. Calaram-lhe a boca e foram submetidos a crueldades. Sua cultura foi destruída e hoje ainda são conhecidos como quase alienígenas.

Estes sim eram modernos. Hoje a população exibe seus corpos e diz que se trata de ser moderno. As pessoas estão voltando a querer um contato maior com a natureza. Estão sentindo falta de sentir a si e ao mundo natural que os cerca. Perceberam que a complicação deste século não garante felicidade a todos e sim a somente alguns poucos.

Na época em que índios viveram não havia pobres e ricos, por isso jamais fez sentido haver preconceitos, objetos de ostentação ou vitrines de exposição. Todos eram iguais em essência. O Brasil era mais moderno há milhões de anos atrás. O que se chama de moderno é cansativo, destrutivo e falso. Apenas existe para garantir o sucesso, a bonança e a prosperidade de uns poucos na sociedade. No fundo sabemos que no pódio há espaço somente para uma pessoa.

quarta-feira, fevereiro 22

A construção do Pensamento



Todos nós temos pensamentos e tentar mudá-los pode ser um desafio difícil de vencer. Idéias podem ser analisadas como sendo semelhantes a árvores que nascem e se enraízam com o tempo. Logo florescem e se não forem regadas ou tiver a quantidade de sol necessário podem morrer.

As idéias são formas de ver e aceitar o mundo. É por meio das idéias que concretizamos um pensamento e construímos mecanismos de análise, administração e cálculo. Seja a partir de impressões íntimas e intuitivas ou determinadas pelo ambiente enraizamos noções de interpretação e de como aceitar fatos e histórias. Criamos nossa noção de vida a partir do que lemos, ouvimos e aprendemos. Logo se temos oportunidades de estudo, teremos conseqüentemente, oportunidade de criar nossa própria individualidade, identificarmos nossas próprias atitudes e alterá-las, vinculando com o que nos parece mais correto.

Vivemos, no entanto a crise de que tudo que poderia ter sido inventado e feito já foi realizado, findando as novidades e relativizando que a modernidade é tão somente a reformulação do passado. Mas será que as formas de ver e interpretar o Mundo se extinguiram? Não haverá nada para ser feito ou criado? Viveremos a partir de hoje sobre o que já existiu? O passado e sua constante reinterpretação; é isso o que nos resta?

Estaremos hoje num momento de crescimento ou de perda de horizonte? Essa situação apenas perpetua a forma de ver e lidar com a vida de modo compulsório e tradicional. A própria existência dessa dúvida parece anular as novidades. A preocupação com tentar fugir do que já existe nos impede de avançar. Existem sim fatores biológicos que determinam grande parte da potencialidade humana, mas seu maior poder esta na forma como se vê a vida e se interpreta suas variantes. O pensamento de ser sempre alguém que apenas recebe ordens de outro acima compõe algo ultrapassado. Não é necessário mais haver a necessidade que eduque as massas subjugando-as, tachado-as e classificado-as.

Todos nós temos um jeito pessoal de lidar com a vida, adotando hábitos e costumes aprendidos que podem até certo ponto definir alguma liberdade. A escolha de seguir caminhos pré-determinados já não nos pertence mais. Se encontrar e fomentar a própria individualidade de modo realmente impar é um desafio. Por bem da verdade ainda não se sabe bem o que somos, mesmo tendo a história a nosso favor. Sentir-se num quarto escuro. Ficar com raiva da situação ou se embebedar com pensamentos morticidas não ajuda.

Ao iniciar a tentativa de criar um modelo de vida próprio a sensação inicial pode ser semelhante a trabalhar numa escavação durante muito tempo e não obter nenhuma novidade, nada do que foi pensado inicialmente foi alcançado. Viver a constante auto-observação e fustigação não garante resultados instantâneos. No início as respostas vem aos poucos. 

quarta-feira, março 9

Tempo da Mulher

Vivemos num período de novidades. De coisas que ainda não se viu com plena dispersão popular. Por exemplo, a arte com toda a sua envergadura crítica têm ainda sido interpretada com preconceito e imaturidade. Mesmo com essa contradição do Novo e o presente atrasado, existem boas condições de que ainda mais mudanças possam ocorrer. Grandes reformas políticas e cientificas são ensaiadas.

A atualíssima lei Maria da Penha que garante tanto a mulher quanto ao homem proteção contra violência doméstica e mesmo entre cônjuges de modo geral, é um exemplo da modernidade rompendo com aspectos arcaicos da cultura presente. A lei parece, no entanto, estar à frente de seu tempo, pois as mulheres muitas vezes negam esse direito e permanecem na cultura tradicional de submissão.

A tradição sexista de imposição da opinião masculina sobre a mulher e as obrigações cotidianas divididas de forma abrupta e preconceituosa tem de todo modo sendo criticadas e abrindo espaço para novas formas de organização familiar. Discussões não apenas em relação à violência e obrigações sexistas tem surgido, diversos outros campos tem se discutido.

Essas mudanças são tão “chocantes” para nossa atrasada sociedade que alguns classificam como sendo o Apocalipse previsto na Bíblia Cristã - momento em que o Mundo se acabaria pela volta de Cristo a terra. O que um dia se chamou de racional tem hoje realmente sido criticado e realizado mudanças sociais, seja pelo acumulo de conhecimentos ou pela simples vontade de mudança da sociedade. Não são potencias para uma revolução, mas simbolizam um novo recomeço.

A criação de novas tecnologias no ramo da comunicação visual e virtual tem ampliado a compreensão humana de seu significado e potencial. Muitos acreditam que os limites já foram dissecados ao máximo, outros que se trata apenas de um começo. O que há de mais revolucionário ainda esta por vir. 

Mesmo com diversos campos do saber social e cientifico sendo reformulados e com todas as mobilizações pelo Mundo, ainda existe a cultura machista de dominação. Mesmo os jovens que se acham tão revolucionários muitas vezes são os mais tradicionais que existem. Não aceitam novas culturas e alguns têm repulsa pela mudança. Esperam dos outros e repetem a hipocrisia do faça o que digo, jamais o que faço.

Em meio à desorientação do que significa o novo, muitos utilizam termos pejorativos para classificar o que não aceitam, gostam ou respeitam. Dessa forma o que é bom se torna ruim e o que é ruim se torna bom, sempre com fins escondidos e ideologicamente manipulados. Quase sempre com ideais de dominação e segregação social.

Ainda sabemos distinguir o que é perfeito apesar das diversas criticas ao que nos é apresentado como sendo o melhor. Tem se aprendido que o perfeito nem sempre é o melhor ou o mais adequado, trata-se de um momento histórico e social dentro de um determinado contexto para habilidades especificas. É dentro dessas circunstâncias que se define o que é perfeito. O prazer nem sempre ocupa status de perfeição por conta de sua variação pessoal e cultural. Exemplificando de forma genérica e pratica. O prazer da mulher em relação ao homem em algumas culturas são bem reduzidas. O homem quase sempre é privilegiado no sexo; sempre goza antes e mais rápido.
  
Mesmo com algumas intervenções profundas a sociedade não mudou em essência. Ainda existem ricos e pobres em demasia e o poder tende a permanecer na mão de poucos. O ciclo da vida se repete quase que automaticamente, nascem, crescem, reproduzem e morrem. Todos se sentem úteis por essa normal e tradicional contribuição a sociedade.

De repente o reflexo das mudanças maiores ainda esteja por vir. O período de tempo em que as grandes alterações se forjaram foi muito curto. Por conta disso a malha social ainda esteja se organizando para se adaptar com mais aconchego. Ainda não se pôde decidir com toda certeza aonde vai se assentar o prumo das coisas.

De fato vivemos o resultado de decisões passadas, quando se optou por um modelo de sociedade Greco-romana certamente algumas alterações não eram esperadas no seio da sociedade. Algumas atitudes comuns a Grécia Antiga, como o relacionamento homo afetivo tende a se espalhar e se popularizar, tal como a participação popular na política e a crença em um deus que se adéqüe a Sociedade e não o contrário.

A imagem da mulher ainda cheia de senso machista tem se aglomerado em pontos de discussões de mudança. Muito se ouve de independência feminina e de que nem sempre é preciso que um complete o outro, e sim que vivam de igual acordo. Sem que a figura do homem pese mais que a da mulher ou vice-versa.  

sábado, fevereiro 12

O fim esta logo ali...


Homem erudito, homem prudente, homem alfa, homem dos negócios, homem das certezas infindáveis, eis a figura daquele que sabe que sabe (homo, sapiens, sapiens)!

Ah, quanto tempo faz desde que tudo começou. Foi como piscar os olhos e encontrar uma nova realidade e um novo mundo erigido em sua frente. As lembranças estão arquivadas no livro mais velho da biblioteca, mas ainda é possível lê-lo. Estava ele ali, frente ao grande mar, esperando a derrocada do regime antigo. Tudo estava preparado, o mundo que todos conheciam estava diluindo pouco a pouco, só faltava apenas um pequeno passo. Ele, aquele mesmo chamado de homem da noite de mil anos, foi-se, mergulhando profundamente naquele grande mar de águas frias. Dentro desse mar, ele tornou-se, nada mais, do que: o homem moderno.

Ó, grande mar, devolva este homem!

Tu, grande homem moderno, entregou-se totalmente a esse mar. Foi como ver uma virgem se entregar ao teu amado.

Quando voltarás desse mar tenebroso? Quando?!

Desde que o homem mergulhou nesse mar, muita coisa mudou. O presente século alcançou seu maior píncaro na história da humanidade. Ao mesmo tempo, trouxe consigo o propedêutico fim dos sonhos. O canto da sereia já não é ouviu há bastante tempo.

Esse século traz como balburdio as doutrinas positivas: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso como fim. Para esse homem o único meio de encher o azeite da botija é ter, ter, ter, ter, ter...

Quão terrível século. Crise das utopias, das expectativas, das mudanças, das revoluções e crise da própria vida. Ó, passado, como tu estás virando o único conforto de esperança para esse homem. Ceticismo e niilismo conseguiram, infelizmente, nocautear a águia ianque chamada “fé”. Tempo de trevas. Tempos sombrios são esses!

O que tu, ó grande mar, prometeu para esse homem?

Tu, máquina capitalista, suas promessas invadiram esse o homem, que agora está nu e sozinho nesse terrível mar. Todos aqueles que em ti trabalham não ganham e os que ganham não trabalham. É tudo tão sem sentido. Coisas tão absurdas acabam ficando normais.

Pobre de ti, ó homem. Ficaste prisioneiro de si mesmo. Feiticeiro que já não consegue dominar as potências demoníacas que, outrora, evocara. A palavra fez ao homem muito mais do que ele fez por ela.
Grande homem, o que fizeste com teus jovens? 


Era-se a época das rebeliões, em que teus jovens engajavam-se por suas aspirações. Forças maiores lograram injeta-los uma anestesia. Karl Marx, Marcuse, Sartre, Hegel, Rousseau, e tantos outros, estão no esquecimento. Nossos jovens estão indo de encontro com as terríveis drogas alucinogénicas.

O presente século, mais do que nunca, é o cenário ideal para tocar o réquiem nas notas mais agudas do piano. Vivemos uma época de mudanças ou uma mudança de época? Tu, grande homem moderno, podes responder a tal pergunta? Quantos desejos presos no olhar, escondido na mais fria solidão? Quantos momentos perdidos no ar procurando uma saída para teus problemas? Pode corta-los, homem moderno?

Do outro lado da avenida a esperança, o amor, a felicidade, a liberdade e tudo aquilo que constituem as pedras vivas do ser antropológico, esperam ansiosamente anelar-se a ti, ó grande homem moderno.


Até quando, ó homem moderno, vai viver essa ilusão no grande mar? O plasma que tenta encapuzá-lo está se rasgando, uma nova vida começa a ser formar. Ah, e está para nascer!

De quem será a última palavra?

No bojo da sociedade que gerou seus grilhões, crescem as forças e formas de resistência. Está para existir uma nova realidade calcada na ação concreta daqueles que geram os germes da mudança. Está aí, formando-se no velho século, o novo e glorioso século escrito por aqueles vão à luta. Imbuídos de mística transformadora, lançam suas vozes como libélulas no grande mar.

Estão chamando por ti, ó grande homem moderno. Chamando pela volta daquele homem que, há muito tempo atrás, mergulhou nas águas profundas do mar. Venha logo filho pródigo.

Ó homem, venha correndo, pois a noite chegou. As estrelas do céu sussurram pelo teu retorno. Talvez amanhã, ou depois. Saiba que o tempo é escasso. Teu coração, tão pequeno, geme loucamente. Rasga a cortina e deixa o sol entrar existe muita coisa para concertar.

Venha, ora! Vem pra fora homem moderno! Terás força o bastante para sair desse mar? Ou ficará nesse mar para sempre? A noite está tão fria e o tempo urge como leão: o fim está logo ali.

Joga o cobertor e acende a lareira, porque a vida está voltando.

Autor: Alan Ricardo

terça-feira, fevereiro 8

Terra de Macacos e Mulheres.

Macacos dormem e acordam, se regurgitam aqui, bem ao meu lado. Ando alguns passos e tenho de lidar com uma mata suja, devastada e natural como a selva. Ouço gritos humanos que mais parecem sussurros de uma sirene, agudos e espalhafatosos. Assustam e acordam para a realidade instantânea que é presente. Vejo muita vida canalizada para um lado asqueroso da existência.

Os macacos gritam felizes de sua cabeleira e ignorância. Tentam organizar e situar a baderna pelo ligeiro soar de buzinas naturais. A garganta vibra e vejo a goela se mover como a de um cantor. Na mata devasta e asquerosa, existem poucas coisas. Tudo é contado e compartilhado dentro de parâmetros nada dosados.

Macacos soltam urros com seus corpos suados, mulheres submissas e o som de baluartes antigos dão conta de uma situação idiota. Meu riso tenta disfarçar o que na verdade penso e sinto a respeito da situação. Quando me distraio esqueço-me das coisas que acontecem ao meu lado, meu rosto se torna frio, serio, antipático, revelando de fato o que penso.

Nada distrai ou abala os primórdios dos macacos e das mulheres de postura torta de tanta submissão. Tudo que demonstra senso ilógico e não natural dentro de sua concepção é o normal para outros. Macacos se aceitam e se orgulham de levar adiante a tarefa cavernica de ser estúpido, banal e desrespeitoso.

A cultura milenar de relacionamento entre os homens nada ou muito pouco mudou. Senão as formas de fazer as mesmas coisas se implementaram de novidades nada transformadoras. A dicotomia de escolher entre ser o macaco que ainda não evoluiu e a si mesmo aceitando que de repente não se seja igual, encontra resistência já que nem sempre o que realmente é evoluído agrada.

Mulheres que apesar de reclamar nada fazem para mudar sua realidade. Aprenderam a receber e continuaram. Perfumam-se para que seus macacos lhes sujem a alma e ainda se julguem capazes de dar e receber prazer. A linguagem sexista incomoda, mas todos a aceitam seja por comodismo ou por não acreditarem na mudança.

Com o tempo mentiras se tornaram verdades e falsas averiguações situaram a cultura do machismo, do feminilismo, do extremismo e do fundamentalismo. Tem conseguido com êxito assustador manipular o conhecimento e com isso a vontade, anulando a criticidade e a capacidade de transformação e renovação da sociedade.

Deus nos abençoe.

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