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terça-feira, dezembro 6

A força do banal



 
O que faz um poder extraviado?
Abertamente alterado e retificado
Mal que não se acha quando procurado
Que surge amontoado, pouco visibilizado

Que usa o que diz para dizer o que não pode dizer
Imprevisível e pouco visível a crescer e se alastrar
Ao seu poder, a sua vontade, sob sua representação
Causando conflitos apenas pra poder se defender

Em que a força segue agindo controlada por seus desejos
Lobo sob capa de cordeiro caçando quem não quer se render
Limitado pela violenta violência a se desenvolver

Que disputa o que não assume
Causando medo e opressão 
A confundir o que está certo
Corrompida influência 

Que se opõe
Desconhece
E tudo faz
Ao se projetar

sábado, setembro 3

Os tortuosos caminhos da política brasileira



Os últimos acontecimentos políticos no Brasil se tornaram um verdadeiro furacão abalando de diversas formas a já complexa situação pela qual o país passa. O impedimento da presidente Dilma Rousseff demonstrou um conjunto de falhas e distorções bastante comuns para quem tenta entender alguma coisa do que se passa em solo tupiniquim. Para o brasileiro nativo o fato de o cenário, extremamente fatiado e conservador, da política nacional estar passando por maus momentos, não é novidade nenhuma, na verdade, para os bens avisados, a crise atual já estava anunciada há muitos anos antes do atual boom. A grande surpresa tem sido a capacidade dos ilustres representantes legislativos em inovar suas tramas e esconde-las da população. 

Os episódios dessa catástrofe são um ótimo exemplo para se entender quão diversa é a sociedade brasileira, e o quanto os políticos refletem uma contradição em relação aos anseios éticos e morais esperados dos congressistas. De forma geral, em termos de política, não há que se falar em certo ou errado e sim o que deu razão aos acontecimentos, fato é que, com a desinformação, fica difícil se chegar a alguma conclusão lógica e deduzir que exista alguma racionalidade ou respeito à lei. Para cada absurdo cometido existe um argumento mais esdruxulo, e do jeito que vai, a cada dia que passa, as explicações vão se tornando cada vez mais intoleráveis e distantes da realidade da maioria da população.

Outro aspecto relevante é de que as pessoas pobres, que mais lidam com os resultados catastróficos dos erros políticos, é quem menos tem condições de se interessar criticamente ou atuar por mudanças. Geralmente lutando por saúde, educação e segurança, as pessoas em situação de vulnerabilidade dificilmente conseguem se quer, captar os antagonismos da política de esquerda ou o elitismo da direita. Deficiências sociais propositalmente estruturadas para manter o atraso e a falta de conhecimento geral sobre a situação do país, provocando discursos e posturas políticas que muitas vezes ferem os próprios direitos.

Toda essa desconstrução apenas soma fatores ao que já vem sendo consolidado como parte de uma pequena política, ou da politicagem mesquinha assistida nos diversos espaços em que sobressaem aqueles que trabalham barganhando privilégios próprios. O egoísmo parece ser um mal constante na política, e no caso do Brasil foi institucionalizado pelas elites conservadoras que preservam arduamente a naturalização do desprezo pela mulher, pelo negro, pelo índio e pelas pessoas LGBTT. A polícia talvez seja a principal instituição estatal representante do modo preconceituoso, violento e truculento pelo qual a pequena política age em favor dos grandes e escusos interesses hegemônicos no interior da própria sociedade.  

Diferente do que costuma ecoar por aí, não se pretende defender ou acusar de golpe o afastamento de Dilma. Não é possível sustentar que exista um golpe em execução sem saber exatamente quem está no comando ou contra quem efetivamente está sendo mirado. Muitos são os discursos, as narrativas e as desculpas, mas muito pouco ou quase nada se consegue explicar sobre o que vem acontecendo nos bastidores políticos. Como já foi dito, a política parece ter cortado laços com a lógica, a racionalidade e o bom senso, o que impera e determina a tomada de partido não é o esclarecimento, mas o temor, o medo e a emoção.

A dicotomia radical entre as posturas políticas só atrapalha ainda mais o entendimento das causas e consequências obscurecendo e relativizando questionamentos, aplicando uma ideologia fascista de padronização do entendimento e do sentimento nacional. O mundo mudou e o Brasil já não é o mesmo, mas as formas de entende-lo e discuti-lo continuam as mesmas da década de 1980, generalizando comportamentos e fazendo avançar políticas conservadoras transvestidas de progressistas. Não é a vida que tem que precisa caber na política, é a política que tem de caber na vida, de nada adianta rivalidades e estranhamentos por causa de diferenças ou mesmo da indecisão, enquanto a maioria da população se digladia o status quo permanece inalterado.

Não é na síntese ou na unidade indissolúvel que encontraremos a solução, mas é na diversidade, no acolhimento das pluralidades que construiremos um país democrático e para todos. Nem é a política feita nos grandes cenários que deve determinar a forma como as pessoas se relacionam e trocam opinião. É no conjunto das lutas diretas e dos males que a todos acometem coletivamente, que teremos condições de encontrar caminhos possíveis e realmente inovadores.            
      

sexta-feira, maio 1

Ponto de Ignorância


Existe sempre uma comunicação oculta. Um espaço de silêncio que fala mais do que uma hora de conversa. O olhar, a emoção e o poder da imagem falam mais que por mil palavras. E por mais que já houve um dia em que se tenha sonhado em mudar o Mundo, logo percebe que continuamos sendo como nossos pais, repetindo seus erros e superstições. Vivemos petrificando um caráter e aceitando como verdade um ponto de vista, naturalizando um discurso cheio de pontos cegos, de assuntos que não se pode falar.

O Mundo está cheio desses pontos cegos na comunicação, de assuntos que é proibido falar, aos quais se cultua como expressão do poder. A ignorância é uma dadiva dos que pensam ter mais que os outros, usando seu dinheiro para justificar sua antipatia. Receio dizer mas existem muitos exemplos no Brasil, como reflexo da cultura machista, monocrática, hipócrita, neonazista e arcaica preponderante nos estandartes do poder. Por mais que lutem, as mulheres continuam fazendo o mesmo trabalho que os homens sem serem reconhecidas por isso.

Os hábitos naturalizados brasileiros estão tão cheios de determinações regionais, sociais, religiosas, étnicas, sexuais, ainda tão cheio de preconceito, discriminação e injustiças. Existe muita mentira se passando por verdade e muita verdade transvestida de mentira, por isso temos grandes prejuízos e poucos benefícios, mesmo assim, continuamos varrendo tudo pra debaixo do tapete. Quando finalmente pensamos que o gigante havia acordado, sobreveio uma sensação esquisita e indigesta de imobilização da política nacional e muitos retrocessos.

A política não cresce porque não há espaço para diálogos verdadeiros. Estamos cheios de pontos de ignorância e transmitimos essa indisposição para o debate apreciando o comodismo de ser hipócrita numa sociedade capitalista. Finalmente um sonho primitivo de controle da natureza foi conquistado e com ele muitas doenças, um preço que as futuras gerações não estão dispostas a pagar. Abrimos as portas para as novidades globais e temos esquecido das nossas raízes em nossas terras.

O saber tradicional dos povos antigos, a ancestralidade de nossas terras, as verdades de cada povo. Somente o amor, e pelo amor a verdade, é que poderemos reestabelecer ambientes de coerência, justiça e solidariedade. A simplicidade dessas palavras esconde a dureza de não desistir do amor pelo conforto da ignorância, pela experiência de participar desse Mundo. Esperamos primeiro a violência para depois uma conversa franca, os extremistas estão sempre ignorando o que não querem aceitar, por mais que a verdade brade cada vez mais alto.

Muitas coisas podem ser ignoradas como temos visto e existe somente uma coisa que não pode ser detida, o tempo que acaba de passar e com ele mais um lapso de sua vida enquanto lê esse texto. Precisamos de muito pouco para ser feliz, menos ainda para amar, quem sabe até não seja preciso fazer nada para aceitar a nós mesmos, nossas diferenças e amar uns aos outros, igualmente. Mais uma vez as palavras escondem o que quero dizer - talvez só o tempo possa mostrar o poder e o desafio que é não desistir do amor e assim encontrar a verdade.


Já temos muita tecnologia, conseguimos fazer clones, conhecer o espaço, prolongar a saúde, melhorar o que fazemos para sobreviver, mas agora estamos carentes de significado para a vida. Precisamos entender a revolução do amor para saltar a próxima evolução de nossas vidas. Sem perder a consciência do que somos, não precisamos parecer outra coisa para encontrar o que queremos. O Brasil é dono de uma diversidade indescritível e igualmente capaz de respeitar e deixar de tolerar o que não para de ignorar.          

terça-feira, junho 18

O Brasil Acordou


Não sei o que a maioria diz e pensa sobre todo esse processo de mobilização que tomou conta do Brasil nas últimas semanas. É um movimento novo, diferente, mas nem por isso ingênuo. O histórico de mobilizações no Brasil já tem história e por mais que só se saiba de livros, ele influência de várias formas tudo o que tem acontecido. Não é estranho ver comentaristas falando sobre as Diretas Já e o movimento de Impecheament do ex-presidente Collor, como marcos desse histórico.

Fato é, que o que se vê nas ruas de hoje não é fruto de um único e exclusivo motivo ou com apenas um objetivo. É o “bota fora” ou “estou de saco cheio” que nós, brasileiros, temos cativado como um alter ego dentro da sociedade, apenas esperando o melhor momento de esbravejar. Mesmo essa história de sair às ruas é novidade para toda uma geração que até agora apenas estudou os ideias da Revolução Francesa ou o herói elitista Tiradentes nos colégios, por meio de livros licenciados pelo Ministério da Educação.

Sobre os números... Provavelmente muito mais do que 250 mil brasileiros saíram as ruas. As capitais não tinham lugar para os carros, os principais pontos estavam e ainda continuam sendo tomados. Os governos estão tendo que abrir mão de toda uma demagogia para controlar o problema e ser mais práticos com as reinvindicações da população. Acredito que estão percebendo a anarquia que o país pode entrar, caso os ânimos da população não sejam acalmados.

No fundo todos os governantes públicos do Brasil sabem que todo esse processo de mobilização não nasceu de uma jogada política de partidos ou movimentos, foi natural, e isso é o que parece mais assustar. Como hoje tudo se trata de uma eterna briga entre os partidos, e estes não perdem tempo, com o tempo essa situação pode se tornar um decisivo para os próximos passos rumo as campanhas presidenciais.  

Sabem também que toda essa retomada popular não se deve ao aumento de 20 centavos na passagem do transporte público em grande parte do país. Essa parece ter sido apenas a gota d’água para quem já teve de aturar esquemas de corrupções milionários dentro do Congresso Nacional dentre inúmeros episódios de ficção aplicada a realidade quando o assunto é: roubar.

Já a alguns anos que nenhuma grande mobilização acontece de forma tão rápida e inesperada, mas quando acontece, as pessoas parecem relembrar de quem realmente detém ou deve deter o poder, ou seja, o povo. Sair as ruas sem o destino cotidiano, mas num ato de liberdade pública manifestar todas suas ideias, de forma desinibida, isso é realmente radical, mesmo numa Democracia. Ainda mais em se tratando da frágil, recente e decente democracia brasileira.    

Em tempos de politicamente correto é preciso fazer uma nítida distinção entre manifestação e vandalismo no Brasil. As mobilizações populares são sempre pacificas, somente os policiais militares que vão armados, o povo mesmo só se arma com bandeiras e faixas. Sobre o vandalismo, não faço apologia, mas concordo que a radicalidade proporcional pode gerar bons efeitos dentro do ambiente político.


Só peço que os queridos leitores que ajudem na ideia de que não devemos comparar o contexto atual com outros momentos históricos. Nunca houve internet em outra época, nem nunca pessoas usaram a mesma marcara em manifestações pelo mundo todo – me refiro ao V de Vingança. Outra coisa nova é que as pessoas não seguiram um líder e sim houve diversas lideranças, mas não uma única, centralizada e capaz de domar e focar toda a demanda popular. 

sexta-feira, novembro 30

"Meu Brasil brasileiro, meu mulato estrangeiro (...)"

Conexão política

A cada dia que passa cresce a minha frente, como um câncer, diversas anomalias que não permito passar sem fazer minhas ressalvas. Se você esta confuso, sugiro pensar nisso como a relação de pai e filho, onde o pai briga com o filho na tentativa de "consertar" os passos errados do filho pródigo. E como ser humano que sou, de certa forma pai, sinto-me na obrigação de contribuir ou ajudar a bagunçar ainda mais com o que ainda posso ter: opinião. 

Antes de sentar pra escrever esse texto fiquei pensando nas ultimas coisas que foram noticia: mensalão, crise econômica, violência, desastres ambientais, morte de Elisa Samudio, fim do mundo em 2012 e etc. Não foi difícil concluir que apesar de não ser possível prever o futuro, a coisa não esta fácil pra ninguém. E não é preciso esperar por coisas boas, porque não chegarão. Pelo menos é o que posso deduzir quando leio as noticias. 

E como não falar do Mensalão no Brasil?! Um dos grandes casos de corrupção foi julgado pela primeira vez. E pra se ter uma ideia, nenhuma lei nacional especifica regula o que se chama de "crimes do colarinho branco". Existem sim vários marcos legais que determinam o cuidado com a coisa pública, ou seja, o zelo com o que é de todos, em palavras mais técnicas, a tal probidade administrativa. Mas na ausência de seu cumprimento e de quem o possa exigir, tudo o que se tem de lei contra a corrupção passou e tem passado como se não existisse. Caso contrário não haveria corrupção no Brasil. 

Ao final de tudo o que foi e é esse julgamento, ainda não sei dizer o que vai ficar como resultado dessa história toda. Não sei se teremos uma nova lei pra resolver o problema, se alguém aprendeu que corrupção não é uma coisa boa ou se o povo brasileiro realmente assimilou o que se passou por terras tupiniquins. Fica difícil saber a repercussão desse tipo de coisa quando a impressão de quem vive por aqui é a de sempre estar sempre roubado, seja pelas empresas, pelo governo ou pelos ladrões nossos de cada dia, é como se isso não mudasse muita coisa. 

Falando em roubo, tenho pensado no quão difícil tem sido estar vivo em solo brasileiro. O tal Estado, teoricamente responsável por garantir segurança, saúde e educação (Teoria do Estado Minimo, resultados do Neoliberalismo), não me oferece nada disso. Se quero segurança preciso instalar cerca elétrica, se procuro por saúde de qualidade, irei eu para o plano de saúde (Pago), e por fim, se existe vaga em uma instituição publica de ensino, quando há, é mega concorrida para depois entrar de greve duas vezes ao ano.

Falam em crise economia, vejo mais uma crise civilizatória. O ser humano foi deixado de lado, hoje temos estruturas burocraticas que nos impedem de fazer até o que é certo. Enquanto que de outro lado temos a mais pura balburdia política e institucional protegidos pela ignorância alheia e pelas brechas que encontram.Muitas brechas preparadas pelos próprios politicos.

O Brasil pode chegar a ser o país de primeiro mundo que alguns autores e intelectuais pensaram um dia. Realmente temos tudo o que é necessário para produzir um novo modelo de sociedade, de bem-estar, mas falta o mais importante: reflexão politica, amadurecimento da população e do poder politico através da população. Deve haver uma relação forte o suficiente entre o poder politico e a população, essencialmente os dois devem sempre andar paralelos, sempre acompanhando as mudanças.

Pensar nisso e acreditar no que pode resultar desse tipo de relação sócio-politica parece conseguir dar a oportunidade de escolha a quem vive em sociedade. Escolher o que irá acontecer com o país no qual no qual se vivi. Esse parece ser o mais adequado. A opção de liberdade. De construir algo que realmente contemple a sociedade.
     


sábado, março 19

Sofia no País das Maravilhas.


Antes de dormir a pequena Sofia, de apenas catorze anos, decidiu ler alguns excetos do livro que recebera anos atrás. Era um simples livro chamado “Alice no País das Maravilhas”. Em cada leitura feita, Sofia descobria um novo mundo. Além disso, Sofia refletia introspectivamente como seria viver no país das maravilhas. A personagem de Alice parecia muito com ela. Ambas, conforme o livro tinha a fisionomia análoga. “Alice era mulher e não homem” pensava Sofia ao lembrar-se do que a professora havia tinha dito pela manhã na aula sobre os contos infantis. A professora tinha dito que naquele dia, comemorava-se o Dia Internacional da Mulher e explicou que os contos podem ser ambíguos, desde sua interpretação até as personagens. Existem tanto heroínas quanto heróis. Além disso, cada história, por mais simples e sucinta que seja, tinha sempre algo a ensinar.

Decorrido algumas horas de leitura, Sofia imergiu num sono profundo. Ao adormecer sentiu somente sua mão suave recair sobre a cama e, também, o seu livro cair.

- Sofia... Sofia! Venha... Ouvia-se uma voz longínqua.

Ao se levantar, Sofia reparou o lugar onde estava. Era um lugar bastante alto. Reparou que, acima do templo, estava escrito um nome: Partenon. Logo, lembrou-se que estava numa acrópole. Contudo, não sabia por que estava ali. Minutos atrás estava em sua cama lendo e, agora, estava num grande templo. Foi então que ouviu novamente a voz: venha, Sofia! Olhou para todos os lados tentando perceber de onde a voz vinha. Foi então que decidiu ir em frente. Depois de caminhar alguns minutos, chegou numa grande sala. Olhou para cima e viu que as paredes eram pretas e não tinha ninguém na sala.

- Quem é você, quem é você menina? Ouviu-se uma voz balburdiando. Sofia com toda displicência respondeu: - Não importa quem sou, quero saber quem é você? E por que estou nesse lugar?

- Cara Sofia, não sabe quem é você e muito menos quem sou eu? Sou tudo e nada, o bem e o mal, a verdade e a mentira, a transparência e a obscuridade, o maquiavelismo e a ingenuidade, a vontade de poder e o poder sem vontade, o controle do tempo e o tempo ultrapassado, o possível contra o impossível, a modernidade contra o antigo regime, o realismo progressista contra o conservadorismo pragmático.

- Seja mais objetivo - Sussurrou Sofia.

- Muitos nomes foram e continuam sendo me dados, capitalismo, liberalismo, sistema econômico, modo de produção e muitos outros. Existe, além disso, debates e discussões sobre minha origem. Alguns, tentando colocar em clarividência minha gênese, afirmam que sempre existe nas entranhas do ser humano. Era como explicar uma doença patogênica, isto é, explicar o que já está explicado por si só, ou, tentar dar significado para algo que, na verdade, não precisa ter significado. O próprio significado já está colocado. Nisso, muitos falaram que as condições para meu surgimento estavam dadas, bastavam somente às condições para o meu desenvolvimento.

- Se existe toda essa discussão sobre sua origem, como explicar sua continuidade? - disse Sofia, pensando que, se o capitalismo surgiu, ou não, teria uma razão básica para sua sobrevivência.

- Vejo que é uma menina curiosa. Posso respondê-la usando exemplos trivias. Lembra-se do livro de Alice? Então, a história de Alice começa quando ela decidiu seguir o pequeno coelho e entrar na toca com ele. Ela, espontaneamente, queria segui-lo. E, já estando no país das maravilhas teve que tomar muitas decisões. Isso demonstra que Alice queria descobrir algo de novo e não mais viver as coisas como eram. Era necessário, para Alice, conhecer um mundo novo e que pudesse, pelo menos, pensar livremente. Ela não queria ser como as crianças da época, onde se ensinava a pensar, comportar e sentir, mas Alice não pensou nas consequências.

- Isso já entendi, quero saber como você sobrevive? - falou Sofia.

- A sociedade formatada segundo meus arquétipos, está fundamentada no modo de produção. Não é somente a política ou quanto menos a área econômica as que podem exercer o primado do poder. Ao contrário, é como as pessoas produzem e reproduzem materialmente. Isso sim será determinante. Contudo, somente alguns podem dominar o modo de produção. Isso significa, que nem todos, podem ocupar a cúpula do poder, somente uma minoria. E essa minoria, é a classe dominante ou aquela que domina. A dominação que a classe dirigente exerce sobre o processo de produção e o processo de trabalho é a fonte do poder. A maioria, aqueles que servem a classe dominante separam-se das mercadorias que produzem. Eles são obrigados a vender sua força de trabalho ao capital. Este paga em forma de salário o necessário para sua reprodução. Entretanto, a força de trabalho produz mais do que o necessário para a sua reprodução, isto é, o excedente torna-se mais valia e esta apropriação expressa o domínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo. A única classe que poderia romper com isto é a classe produtora. Esta, porém, precisaria abolir não só as relações de produção como enfrentar a oposição das classes auxiliares da classe dominante.

Quando essas palavras eram ditas, Sofia lembrou-se, que o conto de Alice fora criado durante a “Era Vitoriana”, quando a Segunda Revolução Industrial eclodiu e, igualmente, o reino da Inglaterra havia se firmado como potência. E, junto a isso, o mundo do trabalho foi erguendo-se.

- Sofia, preste atenção. Amanhã será seu aniversário e vai precisar entender o que estou falando, temos pouco tempo. A partir desse novo mundo, assim como o país de Alice, todas as coisas mudaram. A noção de tempo é diferente. Assim como o coelho na história de Alice está sempre com pressa, correndo para todos os lados. Da mesma forma é o homem. É necessário tempo. Desperdiçá-lo, nem pensar. Tempo é dinheiro. Mas o homem não consegue alcançar o tempo, assim como Alice, sempre que via o coelho, passava a segui-lo, contudo, sem nunca alcançá-lo. Mas querida Sofia, na medida em que o homem foi descobrindo novos mundos e novos caminhos, esqueceu-se de descobrir a si mesmo. Lembra-se, do Gato de Cheshire? Ele instiga Alice a tomar decisões diferentes, das quais ela não tomaria normalmente, criando dúvidas em sua cabeça e levando-a a explorar novas situações. Alice entra numa floresta onde nada, inclusive ela, não tem nome algum. Ela não se reconhece a si própria. Assim é o homem. Logo no início da nossa conversa Sofia, perguntei quem era você, mas não conseguiu responder. Lembra-se do livro, O Mundo de Sofia, do pequeno truque? Todos nasceram na ponta dos finos pelos do coelho. Lá em cima, nas extremidades dos pelos, é possível ver um mundo diferente. Mas conforme envelhecemo-nos, somos arrastados cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficamos por lá. Lá embaixo é tão confortável que não ousamos mais subir até a ponta dos finos pelos. São poucos que têm ousadia para se lançar nesta jornada de volta a extremidades dos pelos.

- Nossa tudo isso é verdade, mas quando será seu fim, ou todos ficaremos para sempre na pelagem do coelho? - disse Sofia pensando que na história de Alice existiu um combate a ser travado. Entre a Rainha Vermelha e a Rainha Branca. A rainha vermelha era na história aquela que impõe dogmas, crenças não-questionáveis a suas crianças e a todos que estiverem à sua volta. Era onde existe a exploração. Por outro lado, a Rainha Branca bondosa, constitui o contrário de tudo o que a rainha vermelha desejava fazer. Mas mesmo tendo a rainha branca ao seu lado, com todo seu exército, Alice teria que lutar, ela e sua espada, contra o monstro.

- Bem, Sofia. Para que eu pudesse existir, foi necessário o homem escolher-me, assim como Alice decidiu entrar no país das maravilhas. Sair desse país deve ser escolha dele. Somente ele pode decidir. Somente ele tem a espada da decisão. Agora, deves ir embora, pois estão lhe esperando, ou desejar ficar aqui eternamente?

- Não posso, tenho que ir. Até mais - falou Sofia.

- Sofia... Sofia! Venha já está tarde e precisa arrumar-se para teu aniversário - disse sua mãe ao pé do ouvido. Ao ouvir, Sofia levantou e pensou consigo: - Nossa, será que estive sonhando? Ou não?
Ao olhar para o livro que lera até tarde, encontra a seguinte frase escrita: “Se esse mundo fosse só meu, tudo nele seria diferente. Nada era o que é porque tudo era o que não é. Tudo o que é, por sua vez, não seria, e o que não fosse, seria.”

Referências Bibliográfica

* CARROLL, Lewis. Alice no país das Maravilhas. Porto Alegre: L&PM, 2002.
* JOSTEIN, Gaarder. O Mundo de Sofia. São Paulo: Cia das Letras, 1997.
* VIANA, Nildo. Um marxismo vivo. Goiânia: Edições Germinal, 2000.
* NOGUEIRA, Adriana Tanese. Alice no País das Maravilhas: o Filme 2010. Uma Crítica Psicológica Feminista. Disponível em: http://www.psicologiadialetica.com/2010/03/alice-no-pais-das-maravilhas-ofilme-de.html
* POLZONOFF, Paulo. Alice no País de Freud, Marx ou Hegel. Disponível em: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.aspcodigo=362&titulo=Alice_no_Pais_de_Freud,_Marx_ou_Hegel

Alan Ricardo

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