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terça-feira, dezembro 6

A força do banal



 
O que faz um poder extraviado?
Abertamente alterado e retificado
Mal que não se acha quando procurado
Que surge amontoado, pouco visibilizado

Que usa o que diz para dizer o que não pode dizer
Imprevisível e pouco visível a crescer e se alastrar
Ao seu poder, a sua vontade, sob sua representação
Causando conflitos apenas pra poder se defender

Em que a força segue agindo controlada por seus desejos
Lobo sob capa de cordeiro caçando quem não quer se render
Limitado pela violenta violência a se desenvolver

Que disputa o que não assume
Causando medo e opressão 
A confundir o que está certo
Corrompida influência 

Que se opõe
Desconhece
E tudo faz
Ao se projetar

segunda-feira, novembro 7

O País da Contradição




Os textos aqui postados em geral se utilizam de muitas metáforas e anedotas figuradas para ter maior elasticidade em alcançar certos assuntos e propor analises mais amplas, sem apontar diretamente um ponto único de discussão. Contudo, comezinho esse discurso de indiferença, diante de todos os acontecimentos que tem marcado os dias com reviravoltas políticas apocalípticas, tornou-se quase impossível não falar da crise que toma conta da conjuntura nacional evidenciando injustiças, e como não falar de toda essa parafernália pseudo high tech e pós-moderna transvestida da conhecida estrutura colonial que entope o cotidiano. Algumas já tão recorrentes que passam batidas, mas que são facilmente observáveis no comportamento naturalizado em sociedade. 

O Brasil é o país da diversidade e da contradição. Na mesma proporção agigantada em que a população se mostra como resultado de um grande caldeirão de miscigenação étnica e cultural pouco comum, demonstra por outro lado uma enorme apatia política. E se por um lado quem exerce ofício político trabalha em média três dias por semana e ainda recebe salário, e que somando todas as gratificações, auxílios e regalias chegam a tornar-se altíssimos, quem dá aula nos municípios não chega a receber o teto salarial, a categoria policial que sai as ruas não tem condições de exercer um trabalho digno e grande parte dos centros médicos públicos padecem. Enquanto os mais pobres pagam tributos maiores do que podem, os milionários se quer recolhem o Imposto sobre Grande Fortunas previsto na Constituição Federal. 

Se por um lado a polícia ameaça e prolifera um ambiente violento de guerra as drogas, por outro, violentam a camada da sociedade da qual eles também fazem parte, reprimindo seus semelhantes para proteger o patrimônio dos ricos. Na prática o que tem acontecido é uma guerra contra a pobreza onde só quem não tem dinheiro cai atrás das grades ou passa por constrangimentos desnecessários, não apenas em relação a defasada tipificação penal de drogas no Brasil, mas contra toda uma camada social e assalariada. Quem olha um país assim tão grande territorialmente e tão rico em recursos naturais, não é capaz de imaginar a pequenez do pensamento político e cultural que predomina e exerce o controle do aparato político estatal. Infelizmente ainda vivemos num típico cenário de faroeste caboclo em que quem é inteligente faz por onde e fica rico do melhor jeito que consegue.

Há ainda um velho e persistente ranço de intolerância que se manifesta sob discursos racistas, preconceituosos, machistas, reflexo de uma elite burra e atrasada. Um discurso repressor e de tom conservador que ignora o fato de que toda família brasileira que se preze, tem alguém que se encaixa no perfil das minorias exploradas e violadas. Uma terra em que celebridades não fazem arte, atores só encenam grandes marcas, cantores tem medo de perder a popularidade, juízes não fazem justiça, políticos não administram o bem público, jornais não informam a verdade, em que existe uma educação limitada e limitadora ensinada.    

Se por um lado a sociedade brasileira acolhe e vende o discurso da igualdade de direitos, dos direitos humanos, ao meio ambiente, a diferença que seja, por outro está mergulhada na hipocrisia de tapar o sol com a peneira e discutir a marginalização de forma marginal propositalmente. Nunca nenhum benefício social foi disponibilizado ao povo sem que houvesse enfrentamentos, resistência e dialogo, mesmo quando militantes puderam assumir o poder, nunca nada foi realmente feito com interesse no benefício popular. Parece já ter sido naturalizado de forma tão profunda e inerente na mentalidade dos brasileiros a ideia de que planejar, executar e avaliar é balela que no final qualquer gambiarra serve.

As paisagens naturais e as belezas tropicais parecem ter causado um atrofiamento mental que sempre legitima o discurso conquistador de quem faz o que quer e porque está feito, não pode mais ser desfeito. Um lugar em que respeitar a ignorância e ser cúmplice do desrespeito se tornou traço cultural, forma de pensar, brincadeira normal que faz todo mundo calar a boca ou sorrir abertamente. Apesar de ser reconhecido como um país rico, entre as dez maiores economias do mundo, o Brasil só será capaz de ser desenvolvido e plenamente rico, quando deixar de fingir acreditar no que fala e manter a coerência com seu discurso; aprender a confiar no seu povo e parar de servir como capitania das elites capturadas pela sua própria vontade de ocupar o papel dos colonizadores.          

sábado, setembro 3

Os tortuosos caminhos da política brasileira



Os últimos acontecimentos políticos no Brasil se tornaram um verdadeiro furacão abalando de diversas formas a já complexa situação pela qual o país passa. O impedimento da presidente Dilma Rousseff demonstrou um conjunto de falhas e distorções bastante comuns para quem tenta entender alguma coisa do que se passa em solo tupiniquim. Para o brasileiro nativo o fato de o cenário, extremamente fatiado e conservador, da política nacional estar passando por maus momentos, não é novidade nenhuma, na verdade, para os bens avisados, a crise atual já estava anunciada há muitos anos antes do atual boom. A grande surpresa tem sido a capacidade dos ilustres representantes legislativos em inovar suas tramas e esconde-las da população. 

Os episódios dessa catástrofe são um ótimo exemplo para se entender quão diversa é a sociedade brasileira, e o quanto os políticos refletem uma contradição em relação aos anseios éticos e morais esperados dos congressistas. De forma geral, em termos de política, não há que se falar em certo ou errado e sim o que deu razão aos acontecimentos, fato é que, com a desinformação, fica difícil se chegar a alguma conclusão lógica e deduzir que exista alguma racionalidade ou respeito à lei. Para cada absurdo cometido existe um argumento mais esdruxulo, e do jeito que vai, a cada dia que passa, as explicações vão se tornando cada vez mais intoleráveis e distantes da realidade da maioria da população.

Outro aspecto relevante é de que as pessoas pobres, que mais lidam com os resultados catastróficos dos erros políticos, é quem menos tem condições de se interessar criticamente ou atuar por mudanças. Geralmente lutando por saúde, educação e segurança, as pessoas em situação de vulnerabilidade dificilmente conseguem se quer, captar os antagonismos da política de esquerda ou o elitismo da direita. Deficiências sociais propositalmente estruturadas para manter o atraso e a falta de conhecimento geral sobre a situação do país, provocando discursos e posturas políticas que muitas vezes ferem os próprios direitos.

Toda essa desconstrução apenas soma fatores ao que já vem sendo consolidado como parte de uma pequena política, ou da politicagem mesquinha assistida nos diversos espaços em que sobressaem aqueles que trabalham barganhando privilégios próprios. O egoísmo parece ser um mal constante na política, e no caso do Brasil foi institucionalizado pelas elites conservadoras que preservam arduamente a naturalização do desprezo pela mulher, pelo negro, pelo índio e pelas pessoas LGBTT. A polícia talvez seja a principal instituição estatal representante do modo preconceituoso, violento e truculento pelo qual a pequena política age em favor dos grandes e escusos interesses hegemônicos no interior da própria sociedade.  

Diferente do que costuma ecoar por aí, não se pretende defender ou acusar de golpe o afastamento de Dilma. Não é possível sustentar que exista um golpe em execução sem saber exatamente quem está no comando ou contra quem efetivamente está sendo mirado. Muitos são os discursos, as narrativas e as desculpas, mas muito pouco ou quase nada se consegue explicar sobre o que vem acontecendo nos bastidores políticos. Como já foi dito, a política parece ter cortado laços com a lógica, a racionalidade e o bom senso, o que impera e determina a tomada de partido não é o esclarecimento, mas o temor, o medo e a emoção.

A dicotomia radical entre as posturas políticas só atrapalha ainda mais o entendimento das causas e consequências obscurecendo e relativizando questionamentos, aplicando uma ideologia fascista de padronização do entendimento e do sentimento nacional. O mundo mudou e o Brasil já não é o mesmo, mas as formas de entende-lo e discuti-lo continuam as mesmas da década de 1980, generalizando comportamentos e fazendo avançar políticas conservadoras transvestidas de progressistas. Não é a vida que tem que precisa caber na política, é a política que tem de caber na vida, de nada adianta rivalidades e estranhamentos por causa de diferenças ou mesmo da indecisão, enquanto a maioria da população se digladia o status quo permanece inalterado.

Não é na síntese ou na unidade indissolúvel que encontraremos a solução, mas é na diversidade, no acolhimento das pluralidades que construiremos um país democrático e para todos. Nem é a política feita nos grandes cenários que deve determinar a forma como as pessoas se relacionam e trocam opinião. É no conjunto das lutas diretas e dos males que a todos acometem coletivamente, que teremos condições de encontrar caminhos possíveis e realmente inovadores.            
      

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