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sábado, novembro 5

Grafite em Goiânia.











Essas fotos foram tiradas de grafites realizados na Praça Universitária de Goiânia no mês de Setembro de 2011.


Não temos apenas que ver essa imagens, é preciso interpretar sua mensagem sem preconceitos ou conceitos.

Mesmo que não tenhamos controle, toda produção humana reproduz os pensamentos e anseios humanos que muitas vezes não conseguimos exprimir racionalmente.

Cada enfoque pode mudar todo o conceito da foto e impedir sua identificação na praça onde foram tiradas.

Infelizmente não foi possível localizar a autoria de cada cenário.

segunda-feira, agosto 8

UM ÍNDIO


Maria Bethânia 

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério Sul da América
Num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E os espíritos dos pássaros
Das fontes de água limpa
Mais avançada que a mais avançada das mais avançadas
Das tecnologias

Virá
Impávido que nem Mohammed Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé filhos de Gandhi
Virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás, todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz,
em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto sim resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu ja sei que ele dirá, fará
Não sei dizer assim de um modo explícito

Virá
Impávido que nem Mohammed Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranquilo e infalível como Bruce Lee
Virá que eu vi
O axé do afoxé filhos de Gandhi
Virá

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
Virá

quinta-feira, janeiro 20

EDIÇÃO ESPECIAL

Liberdade que temos x Liberdade que queremos.

Era já quase décima hora noturna, quando o professor perguntou a turma sobre o que eles entendiam sobre liberdade:

- Bem, pessoal. Esse livro que vocês leram fala sobre a liberdade. Mas, além do que o autor mostra no livro, quero saber de vocês, o que é liberdade? Somos livres? O que fazer para sermos, totalmente, livres? Existe, aliás, liberdade ou é uma utopia?

Naquele momento, todos começaram a pensar. Até aqueles que estavam conversando, uniram-se a discussão. Uma voz na frente, ao lado da janela, respondeu:

- Ah, professor. Esse papo de liberdade é coisa do passado. Antigamente, todos eram livres. Naquele tempo, quando não existiam essas coisas de dinheiro, propriedade privada. Todos, desde o pequeno ao grande, podiam usufruir de tudo. As terras, casas, bens materiais, eram compartilhados e distribuídos a todos. Ninguém pegava para si as coisas dos outros. Todos eram livres. Hoje, não existe liberdade. Cada um quer roubar a liberdade do outro usando de diferentes meios.

Aquela resposta ao professor deixou a turma taciturna. Todos olhavam para o professor e falavam baixinho “É mesmo, no passado éramos livres, hoje não temos liberdade”. Mas, ouviram-se outras vozes. Lá, perto do ar condicionado:

- Segundo o filósofo-existencialista Sartre o homem está condenado a ser livre. E mais, segundo o mesmo a liberdade não está circunscrita em obter o que se quis. Ao contrário, liberdade é determinar para si o querer, no sentido de escolher. Tendo uma distinção fundamental entre liberdade de escolha e liberdade de obter, sendo que isso já foi percebido por Descartes, depois pelo estoicismo. Liberdade é sem sobras de dúvida: autonomia de escolha.

A discussão tomou conta de todos. Ouvia-se, de todos os lados, vozes querendo opinar. Alguns tentavam falavam ignorando os outros, os demais com gestos, mas tudo sem sucesso. Até que o professor começou a escrever uma lista para aqueles que quisessem falar.

- Agora é minha vez professor - Falou um rapaz da primeira fila.

- Pois não, pode falar - Replicou o professor.

- Concordo em parte com Sartre, mas como sustentar que somos livres, se, primeiramente, nascemos em uma constituição corpórea, física, em uma determinada família, cidade, época e sociedade, se eu e ninguém escolhemos nada disso? Como explicar isso? Se eu fosse livre queria nascer nos Estados Unidos e, por cima, ser filho de um grande empresário. Acredito e afirmo o mesmo que falou o sociólogo Émile Durkheim, ao elaborar o que ele chamou de fato social. Isto é, que o fato social é algo de vida própria, externo aos membros da sociedade e que exerce sobre seus corações e mentes uma autoridade. Eles são, paulatinamente, internalizados pelos indivíduos através da educação, família, igreja, mídia, jornais etc. E somos, desde crianças, constrangidos a seguir determinadas regras, leis, até isso tornar-se parte de nós mesmos. Normatizando, por fim, nossos comportamentos e maneiras de ser, ou, não-ser, não é professor? Somos coagidos e não livres!

A turma toda, nesse momento, estava insurreta. Uns olhavam para o professor, outros para o relógio da parede - esperando a aula acabar. Aqueles que haviam inscrito para falar desistiram por não terem coragem de dizer algo a mais frente ao que foi falado pelo último aluno. Murmuravam entre si, “quem vai ter coragem de falar agora, depois de tudo isso?”

- Alguém mais desejar falar? - O professor perguntou.

Foi quando ecoou lá no fundo da sala, uma voz angelical solfejando. A menina que começava a falar tinha seus cabelos longos, olhos castanhos, e um rosto sério. Franzindo o cabelo, falou com uma intrepidez fora do comum.

- Esperem um pouco! - Toda turma ao ouvir isso, logo se calou. Só ouvi-se o mastigar dos chicletes.

- Liberdade que temos e liberdade que queremos! Eis o centro da questão - A sala centrou a atenção na fala da garota. Alguns que estavam passando em frente à sala pararam desejosos em ouvir o que a menina tinha a dizer. A menina, então, pronunciou suas palavras:

- A premissa da liberdade situa-se, basicamente: em que cada pessoa possa decidir ou agir segundo a própria determinação. Esse significado é o que encontramos na maioria dos livros, dicionário, revistas, filmes etc. A liberdade, entretanto, é muito mais do que isso. Depois de dizer essas palavras a sala estava um pouco desdenhosa pensando que aquela menina estava falando “abobrinha”. Mesmo assim, estavam curiosos em ouvir o que ela tinha a dizer.

- Antes de saber o significado - Se é que existe - da liberdade em nossos dias, devemos buscar as respostas de algumas perguntas e explicações nos arquivos da História. Pois, o conteúdo e o significado da liberdade muda de acordo com o grau que o homem se percebe e concebe a si mesmo, seu ego, como um ser independente e separado. Pois bem. O período compreendido como Idade Média, ou a grande noite de mil anos, desenvolveu uma cultura e sociedade diferente da nossa. O indivíduo, naquela época, ao que parece, caracterizava-se pela ausência de liberdade individual. Em geral, os membros daquela sociedade tinham reduzidas possibilidades de mudar socialmente de uma classe para outra. Dificilmente, podiam sequer mudar geograficamente de uma cidade ou de um país para outro. Com poucas exceções, tinham de permanecer onde nasciam. A vida particular, econômica e social, era controlada por regras e obrigações. Falando de forma figurada, o homem, a símile, estava como uma criança ao nascer. A criança, mesmo depois do nascimento, encontra-se com o cordão umbilical preso a mãe, ela não é totalmente livre. A criança sente-se ausente de sua individualidade, mas, em contrapartida, têm segurança nos braços da mãe. Criam-se, assim, laços de segurança e a sensação de pertencer que em algum lugar ele esta radicado. São esses laços que ligam a criança à mãe, o membro de uma comunidade primitiva ao clã e à natureza e, no caso, o homem à igreja e sua casta social. Contudo, as mudanças relativamente, súbitas da existência fetal para a humana e a impotência do cordão umbilical marcam a emancipação do bebê do corpo da mãe. Assim, o indivíduo, a partir de então, fica liberto dos vínculos de segurança. Ele defronta com uma tarefa nova: orientar e radicar-se no mundo como um ser livre, individual. Assim como o bebê tem de aprender a andar sozinho, a falar, o home livre também precisa. A liberdade tem um significado diverso daquele que possui antes de ter atingido este estágio. Da mesma forma, aconteceu da passagem da “sociedade medieval” para a “sociedade moderna”.

As palavras que emanavam da boca da garota parecem ter atingindo todos os alunos. Conquanto, todos estavam em um só espírito.

- No limiar da era moderna, o indivíduo emergiu da sociedade feudal e rompeu os vínculos que ao mesmo tempo lhe haviam dado segurança e restringindo-o. O homem descobre a si e aos outros como indivíduos, como entidades isoladas, conhece a Natureza - Que antes o dominava - como algo à parte dele. Todavia, o homem por adquirir essa liberdade possuía um preço a pagar, e quão grande preço é esse!! O homem, então, havia perdido a segurança e o senso de relacionamento que lhes oferecia a estrutura medieval, anos antes. Liberdade e tirania, individualismo e desordem estavam inextricavelmente entrelaçados. Permeando o coração do homem moderno. Todas as relações humanas estavam envenenadas pela feroz luta de vida ou morte pela manutenção do poder e da riqueza.

A sala toda ao ouvir isso estava triste. Era como se um choque microbiano e viral invadisse a sala, penetrando o universo de cada aluno. A Voz da aluna parecia doce como mel, mas com um sabor póstumo feito sal.

- A nova liberdade, essa liberdade que temos hoje. Trouxe consigo um maior sentimento de força e, maior, isolamento, dúvida, ceticismo e, principalmente, medo, isto é, medo à liberdade. O capitalismo libertou o indivíduo. Ele libertou o homem da arregimentação do sistema corporativo; permitiu-lhe firmar seus próprios pés e experimentar a sua sorte no mundo. O indivíduo está livre da opressão dos grilhões da Idade Média, mas simultaneamente está livre daqueles vínculos que costumavam dar-lhe segurança e a sensação de relacionamento. Ele está livre, isto é, sozinho, isolado, ameaçado de todos os lados. O Paraíso está perdido de vez, o indivíduo acha-se, agora só e enfrentando o mundo. Sendo impregnadas do sentimento de insegurança, impotência, dúvida, solidão e angústia. A liberdade que fora antes desejada como uma heroína tem de ser renunciada. E o ser humano tenta fugir de todas as formas dela. O significado da liberdade que temos é parecido com o que foi descrito por Graciliano Ramos em seu livro, Vidas Secas. O casal Fabiano e Sinhá Vitória tinham dois filhos. Um dos seus filhos por acaso ouviu a palavra inferno. Achou bastante bonito aquela palavra e ficava falando o tempo todo. E perguntava, diariamente, aos pais, o que é inferno? Pobre coitado, quando soube do significado não podia aceitar que uma palavra tão bonita (A palavra-coisa de que fala Sartre) pudesse ter um significado tão ruim. Mas... (?)

Quando a menina ia falar suas últimas palavras, o sino havia batido. Interrompendo sua conclusão. Nisso, o professor levantou-se e disse:

- Pessoal, esperem. Amanhã teremos prova sobre esse livro. Portanto, leia ele todo.

Assim que estavam saindo, a última pessoa a ficar foi à menina que havia falado, mas fora interrompida pelo sinal. O professor, abruptamente, lhe falou:

- Amanhã teremos prova do livro que vocês acabaram de ler - Disse isso em um tom distraído.

Logo que a menina estava a sair pela porta quando o professor acrescentou:

- Ah, não se esqueça. Quero ler na sua prova aquele seu “mas”. Certo? - Ao dizer isso a menina deu-lhe um pequeno sorriso.

Como esperado, o professor aplicou a prova no outro dia. Ficou acordado até mais tarde, corrigindo outras provas e ansioso para ler o que a turma tinha escrito sobre liberdade e, especialmente, aquela menina. Fazendo as correções o mais rápido do que estritamente necessário, chegou, por fim, na prova da aluna. Enquanto começava a ler a prova da menina, a luz da lua se infiltrava pelo reflexo da janela. Indo até a janela o professor observou lá fora o crepúsculo que se formou. Voltando para sua mesa, leu toda a prova da menina. Contudo, seu rosto pareceu confuso, espantando. A prova tinha poucas linhas escritas na qual diziam:

- Professor, por tudo o que foi visto e sabido sobre a liberdade. Não posso omitir minha opinião e afirmo o mesmo que fora dito por Karl Marx: “Dirigidos por nossos pastores, encontramo-nos apenas uma vez em companhia da liberdade: no dia do nosso enterro.”

Naquele momento mil perguntas tomaram a mente do professor que silenciosamente refletia em suas introspecções: “Porque ela escreveu somente isso? Será que o... Mas... Parecia ser outra coisa.” O professor buscou entender o motivo daquela frase, chegando à seguinte conclusão: “Acho que o “mas” dela não se resumiu nessa frase. O “mas” que ela queria pronunciar aquele que muitos tentaram expressar, no entanto, sem sucesso. O “mas” significa, além do valor semântico, a oposição contra tudo aquilo que molesta a liberdade. O “mas” exprime uma não aceitação do Status Quo e de tudo aquilo que deixa o homem inerme e isolado. O “mas” é, indubitavelmente e unicamente, a práxis da utopia revolucionária!

Autor: Alan Ricardo.

Referencias Bibliográficas:

FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro, 1974.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2009.

SARTRE, J-P. O ser e o nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 6ª Ed. Petrópolis, Vozes, 782 p.

* Para a realização deste, foram utilizados vários ensaios de cunho acadêmico.

sexta-feira, novembro 12

Pessoas especiais.

Passa pela minha vida ou nem chegam perto de mim e me emocionam, me fazem chorar, sentir bem. São assim, indescritíveis. Tem atitudes diferentes. São extremamente radicais e ao mesmo tempo doces como o açúcar. Fazem moda. Tem plena noção da realidade apesar de não parecer nunca por conta de seu jeito revolucionário.

Seu olhar é profundo, como o de um líder que exclama com a sombra celha. Parecem ser normais, a impressão que se tem, é a de que por d’ baixo daquela carne há luz, muita luz. E paz. São anjos conscientes de seu lado podre e majestoso. Sonegam oportunidades aos seus admiradores e sempre criam antipatia por alguns.

Mesmo depois de mortos são capazes de emocionar aqueles que nem chegaram a conhecê-los. São existências impares, nada pode suplantar o que estes demonstram, ou demonstraram. São, são e são. Jamais deixarão de ser, por mais que isso seja questionado num belo dia.

Depois de dizer tudo isso, ainda que de forma escrita, pode ficar evidente meu amor por muitos que não conheço e outros que me cercam. Penso em alguns, por isso prefiro esquecê-los. São sonhadores e quem sonha suga nossas energias eternamente. São um buraco de luz e vento que parecem nunca se extinguir.

Viver e morrer é o de menos. Assim eles pensam, agem sempre de acordo com essa máxima. Nada mais importa do que seus sonhos. O importante é a felicidade. Falam e cortam o que for preciso para se sentir livre e alegre. São por um tempo silenciosos. Aparentemente tímidos e simpáticos. Nem sempre tudo o que se gostaria que fossem, mas são. E sonham como sonham.

Gosto apenas disso: são especiais. Vão sempre povoar meus pensamentos e sentimentos. Fazer-me gozar e ter nostalgias sem droga alguma injetada na veia. Quero conhecer uma pessoa verdadeiramente especial e que seja difícil de compreendê-la. E que seu doce seja mais do que os outros são. Assim desejo.

segunda-feira, outubro 18

Eu, me apegar?

Você é cheio dos encantos e dos perigos, mas eu estou atenta, não vou me apegar.

Afinal, por que me apegaria?

Ora... Você não acha que me deixaria levar assim, tão facilmente, não é? Só porque ninguém pisca desse jeito que você pisca, meio que em câmera lenta, meio que desplugado do mundo, não quer dizer que consiga me enfeitiçar. Nem mesmo quando lê concentrado, fazendo o mundo parar de girar, ou quando o ritmo dessas piscadelas muda em função do seu humor. Nem assim conseguirá fazer com que me apegue.

Estou atenta a você e a esse seu jeito sui generis de menino. Quando você digita, olhando na tela e na tecla, na tecla e na tela, como desculpa para um intervalo à reflexão, com todo cuidado, relendo o que escreveu, avaliando e voltando às teclas bem devagar, eu quase me desmancho. Mas não, não estou me apegando!

Por mais tentadora que seja essa sua forma simples e franca de ver o mundo, de viver a vida, já me protegi toda de você. Não adianta tentar! Só porque minhas pernas ficam totalmente bambas quando você me encara bem de frente, desse jeito que não me lembro ter sido encarada antes, e porque quando aperta os olhos só pra me provocar eu perco totalmente o rumo, a noção de tempo e espaço, não quer dizer que tenha me apegado a você.

E não me venha falar com esse seu jeitinho, não. Está certo, não há no mundo alguém que misture na fala, no jeito, no som e nos movimentos esse feitiço misto de criança e ao mesmo tempo essa postura de homem tão bem resolvido consigo mesmo. Mas eu estou forte também com relação a isso, não cairei na sua teia. Por mais que tenha atingido meu ponto fraco com essa sua mania de fazer acontecer sem dizer palavra alguma.

É verdade que o jeito que você me beija chega a ser até covardia. Tinha esquecido como era perder o chão durante um beijo e ficar horas a fio solta por aí, presa apenas em seus lábios. Esqueceria da vida bagunçando seu cabelo, carinhando suas sobrancelhas e descobrindo meu próprio corpo através de você... Mas não! Não vou me apegar, e tenho dito!

E só porque onde quer que eu esteja, estão também suas músicas, suas expressões criativas, suas tiradas inusitadas, não vá achando que me apeguei. Nem porque fico rindo sozinha, lembrando das coisas que você diz e faz, ou porque fico horas e horas tentando desvendar essa sua naturalidade – que, aliás, me surpreende todos os dias, a cada aparição sua.

É verdade, admito, que te paquero o dia todo, detalhe por detalhe, e que adoro absolutamente tudo em você. Mas não vou me apegar, não, tá? O fato de ler e reler seus e-mails e suas mensagens compulsivamente não quer dizer nada também. Só porque sou viciada no seu jeito de escrever e de se expressar, não garante que, um dia, talvez, me apegue. Nem de te enxergar em tantas letras de músicas. Nem de sentir seu cheiro de repente, nos lugares mais improváveis. Nem... Estou atenta! Muito atenta!

Já percebi que é um sedutor nato. Suas músicas te denunciam. Você todo se denuncia, porque não faz questão nenhuma de fingir ser o que não é. E isso já bastaria para que eu me apegasse – caso não estivesse tão segura agora, claro. Segura de que você é, definitivamente, alguém a quem apegar-se é pouco. Você entra na gente como um fluído e vai se espalhando de uma maneira contra a qual não há defesa. Não há como apegar-se a você porque a gente passa direto por esse estágio meio termo do gostar. Ou gosta de uma vez, ou adora, você não dá alternativas menores.

E isso tudo porque você é assim, exatamente do jeitinho que é. Porque me deixa de pernas moles e coração aos pulos. Porque nunca sei bem como agir, quando ir, quando ficar. Por você, me deixo levar, perco o controle de minhas próprias resistências. Você põe em xeque toda a segurança emocional que eu criei, com tanto custo, para me proteger da dominação humana.

Há tantos porquês! Foi ali, na primeira vez que o vi, que me apeguei a você, e desse baque que eu nunca consegui entender bem, jamais vou esquecer. Te vi e já soube que era alguém especial pra mim. E agora, no meio dessa fantasia que você me faz experimentar, fico sem minhas principais defesas, afinal, diante de você sou apenas eu, da forma mais pura que consigo ser. E até isso me intriga nessa sua arte de ameaçar minha fortaleza íntima.

Você chegou em um momento em que eu estava em busca de mim mesma, com pedaços vitais espalhados por aí. Sem dizer nada, pegou minha mão, me fez lembrar tanto do que sou e me desafia nesse reencontro comigo mesma. Você desperta a loucura que habita em mim, mas que andava adormecida, que o tempo neutralizou. E que saudade que eu estava desse meu lado! Você é um risco bom de se correr. Desses, cujo o apego permanece para sempre e vai crescendo, e vai crescendo...

* Autora: Aliz de Castro Lambiazzi – Jornalista; Blog Texto Sentido (http://texto-sentido.blogspot.com/)

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