quarta-feira, dezembro 21

Sentido sem sentido



 
Escrever é como descrever um outro ponto de vista e ler é como ver pelos olhos de outra pessoa, pensar sobre o que foi o que escrito é como conversar sozinho sobre universos particulares que se metabolizam num novo ser. Sempre que algo precisa ser escrito, da mesma forma precisará ser lido, sem esse ciclo as coisas nascem mortas. Quero dizer, tudo precisa fazer sentido, ter alguma aplicação prática e conservar um certo grau de necessidade para se conservar pelo tempo e ter validade no exercício cotidiano. Sem a consciência da urgência da vida, sem o sentimento de contribuição e sem a confiança de que mesmo sem sentido num primeiro momento, a auto realização de um dever cumprido é capaz de consagrar alguma paz de espirito, mesmo que depois nada realmente faça sentido. A vida é um todo muito complicado que só começa a se mostrar completa quando se encontra o próprio lugar nesse processo intercalado de sequências ininteligíveis. Muitas vezes acredita-se ser autônomo, estar no controle, autor da sua própria vida, quando na verdade, viver nessa consciência é apenas mais uma forma de prisão. A única certeza absoluta vem do silêncio, do sentimento inquietante que consome a felicidade de todos nos unindo através da profunda e inabalável experiência que nos conecta com a raiz da natureza humana, de que mesmo os erros podem contribuir para acertos, que a vida é um direito de tudo e de todos. Pode ser que agora nada faça sentido, nem seja capaz de se mostrar ideal agora, mas é a rebelde esperança que continua alimentando os sonhos de coisas melhores e contribuindo com que novas realidades se construam.

terça-feira, dezembro 6

A força do banal



 
O que faz um poder extraviado?
Abertamente alterado e retificado
Mal que não se acha quando procurado
Que surge amontoado, pouco visibilizado

Que usa o que diz para dizer o que não pode dizer
Imprevisível e pouco visível a crescer e se alastrar
Ao seu poder, a sua vontade, sob sua representação
Causando conflitos apenas pra poder se defender

Em que a força segue agindo controlada por seus desejos
Lobo sob capa de cordeiro caçando quem não quer se render
Limitado pela violenta violência a se desenvolver

Que disputa o que não assume
Causando medo e opressão 
A confundir o que está certo
Corrompida influência 

Que se opõe
Desconhece
E tudo faz
Ao se projetar

sexta-feira, dezembro 2

A alucinante trilogia do Príncipe Ronnie Von





O cantor carioca Ronnie Von, conhecido como o príncipe loiro de olhos azuis dos anos 1960 e 70 que disputou a atenção do público com Roberto Carlos no mesmo período, gravou principalmente canções românticas e baladas made in radio, mas durante três anos consecutivos - 1968/70 - lançou três discos legendários e nostálgicos. A trilogia tem uma atmosfera bastante interligada e que se repete com diferentes inovações e provocações auditivas.   

Com letras extremamente curiosas, introspectivas e atemporais, a musicalidade da trilogia remete ao ambiente característico das antigas gravações do Tropicalismo. O primeiro disco lançado em 1968 com o homônimo título Ronnie Von possui diferentes referencias da musicalidade brasileira e conta com uma pegada que mistura solos de guitarra e um canto manso, mas rebelde. A faixa Anarquia dá o tom no primeiro disco e surpreende compondo aquele tipo de canção inesquecível e de conotação intencionalmente libertária, lançada originalmente durante a época do regime militar brasileiro, o single continua bastante atual.   

O segundo disco lançado em 1969 - A Misteriosa Luta do Reino do Parassempre Contra o Império do Nunca Mais, tem regravações internacionais e outras faixas que literalmente grudam na parede da memória pela preciosidade. O terceiro e último disco lançado em 1970 e intitulado A Máquina Voadora fazia menção a uma das paixões do cantor, a aviação. Os temas aparentemente confusos falam de diferentes experiências e sensações comuns a todas pessoas de forma bastante criativa, misturando elementos do rock, do acústico, com falas e palavras certeiras em sentenças que parecem sem sentido e são fundidas com o melodrama característico da bossa nova.

Apesar da baixa vendagem quando foram lançados pela primeira vez, o que foi considerado um verdadeiro fracasso que quase arruinou a carreira de Ronnie, atualmente os discos são verdadeiras relíquias alvos de colecionadores e comercializados a $300 dólares em sites gringos. Em 2013 a trilogia foi relançada relegando a trilogia o status de itens da cultura cult, inclusive sendo capaz de reavaliar a obra produzida pelo cantor nesse período, mas só é possível encontrar a versão remasterizada em vinil. 

Para quem ficar curioso(a) para ouvir, basta fazer uma busca no Youtube que conseguirá encontrar algumas versões compartilhadas por usuários.  

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