quinta-feira, fevereiro 4

Narcos






Conheça a história de um colombiano popular e ousado que chegou a traficar cocaína para Los Angeles e faturar $ 420 milhões de dólares por semana e acumular uma fortuna estimada em $ 30 bilhões de dólares. Pablo Escobar, figura principal da série “Narcos” produzida pela Netflix, foi um homem que apesar da aparência populista, movimentou o mundo das drogas na Colômbia e causou conflitos internacionais com os EUA.

Estrelada pelo brasileiro Wagner Moura, produzida e dirigida por José Padilha (Também brasileiro e diretor do filme Tropa de Elite), a série reacendeu o interesse mundial na figura de Pablo Emilio Escobar Gaviria. Traficante colombiano da década de 1980 a 1990 que comandou e expandiu o Cartel de Medellín na produção de drogas, principalmente cocaína, sob diversos acampamentos escondidos debaixo da copa das árvores nas florestas tropicais do seu país.

A atração é apresentada pelo ponto de vista de um agente do DEA (Órgão do governo dos Estados Unidos que combate ao narcotráfico), que decide se mudar para Bogotá investigar e finalizar o negócio criminoso de Pablo Escobar. A investigação começa depois que Escobar começa a transportar toneladas de cocaína através de um jatinho para Los Angeles, causando um verdadeiro problema de saúde pública com o surgimento de assassinatos, overdoses e mortes de jovens, além da enorme evasão de dólares americanos para a colômbia através do tráfico internacional.

No auge do seu império exportador de drogas para os EUA, sem ter onde guardar ou investir todo o dinheiro arrecadado com o tráfico, Escobar chega a enterrar e mapear milhões de dólares em suas propriedades no campo. Mais tarde a revista Forbes colocou seu nome entre os mais ricos do planeta. A série apresenta Escobar nas suas principais facetas: de impiedoso traficante e homem de família que deseja ajudar o povo. Seus interesses políticos e o apoio popular chegaram inclusive a indicá-lo como figura presidencial do país, o que mais tarde se mostrou inviável, justamente pela natureza criminosa de suas atividades.         

A falta de fluência em espanhol do ator Wagner Moura foi uma observação bastante comentada por quem já assistiu a série. A produção também foi criticada por não estabelecer um roteiro definido nos primeiros capítulos, se trata de um documentário dramático ou romance. A equipe do G1 em matéria comentando o sucesso da série, acrescentou que apesar de boa, a série não tem o mesmo ingrediente viciante característico das séries da produtora.   

A série foi produzida como parte de uma parceria entre a Netflix e a Gaumont International Television e apresentou a vida de Pablo Escobar com atenção na produção e comercialização de drogas no continente americano. A produção chega a esclarecer algumas obscuridades do tráfico de drogas com cenas que vão desde a plantação da coca até o preparo da cocaína, ou ainda de Escobar plantando ou fumando maconha. Outro ponto chamativo da trama é o apoio que a população dá ao traficante quando o DEA tenta prendê-lo, a atuação americana era vista como intervenção nas questões nacionais internas.

A bem da verdade, a pobreza e a corrupção tornou o próprio Estado colombiano e sua polícia ineficazes frente ao poder de capital levantado por Escobar. Com o passar dos anos ele conseguiu controlar todos os aspectos necessários para proteger seu negócio das interferências e exigências legais. Talvez por essas nuances contraditórias ou pela falta de um estilo cinematográfico definido, a série acaba permitindo uma análise tanto do personagem, quando do próprio contexto político social do país naquele momento, o que faz valer a pena assistir.    

A série Narcos é um incômodo para Sebastian Marroquín, filho do legítimo Pablo Escobar que deu declaração à Folha de São Paulo, alegando que os responsáveis pela produção usaram a imagem de seu pai sem que a família consentisse. "Queria saber do senhor Padilha como ele reagiria se eu escrevesse uma história da vida dele sem ele saber", provocou o colombiano radicado na Argentina. O diretor rebateu as críticas.

A segunda temporada da série foi confirmada pela Netflix e deve estrear em 2016, a primeira série já está disponível e tem 10 episódios.

sexta-feira, janeiro 15

Os Desencantos do Amor Livre na Modernidade





Já imaginou relacionar-se sem ter que colocar ninguém no centro de sua vida? Quer dizer, sem ser preciso viver pensando em ter que gostar apenas de uma pessoa sem se sentir culpado? Isso é, a grande maioria talvez já tenha pensado sobre o assunto e mesmo que não, é bem provável que já tenha passado por alguma situação parecida. Até porque, no que diz respeito a sentimento e desejo, não é preciso nenhuma autorização para acontecer, chega a ser bastante comum pessoas que apesar de namorar ou se casar, gostam e ficam com outras pessoas, que não uma única. 

Dessa forma fica mais fácil entender o que é amor livre e não é difícil encontrar pessoas que apesar de viver relacionamentos monogâmicos se dizem adeptas ou favoráveis à liberdade de estar com outras pessoas também. A própria expressão ‘amor livre’ deixa no ar seu significado, que de forma objetiva, quer dizer a liberdade de se relacionar sem exclusividade com ninguém. O problema surge quando se tenta colocar isso em prática. Muitas pessoas imediatamente ligam essa ideia à promiscuidade, o que de longe traduz seu real sentido e intenção.  

Socialmente, a cultura monoteísta defendida pela religião e tutelada pelo Estado, não reconhecem os relacionamentos abertos como dignos. Sua principal motivação está ligada a visões patriarcais, patrimoniais e de unicidade em compreender a realidade. A própria existência da família moderna se dá em contextos monogâmicos para a vida inteira, o que não necessariamente pressupõe a existência de amor. Mesmo que as relações privativas permaneçam sendo a forma mais usual e naturalizada de se relacionar, na prática encontra diversos dilemas.

A traição é o maior medo de quem pensa em começar um relacionamento. Isso porque os sentimentos e pensamentos de possessão, controle e hierarquia predominam sobre a espontaneidade, exigindo uma constante e infinita entrega. Apesar de sua complexidade, a traição se tornou tão previsível, que é sempre atribuída ao homem e reconhecida como inevitável pelas mulheres. Nem por isso, namoros e casamentos deixam de existir, essas relações, por mais desgastantes e desiguais, ainda que moldadas por interesses patrimoniais e sociais, tornaram-se tão comuns, que discutir suas limitações é uma afronta à sacralidade e, portanto, impossível de serem ‘consertadas’. Por isso mesmo, dificilmente alcançam a pureza e sinceridade naturais do amor.  

O respeito aos limites do próximo, jamais serviu de parâmetro para as relações a dois, isso porque, nos casamentos a regra é a completa devoção à vida do outro e a exigência de sua reciprocidade como sinal de alguma expressividade de amor. Por mais que a máxima de que ‘ninguém é de ninguém’ seja uma verdade inconsciente, a quebra com o padrão do amor romântico e idealista das relações, continua sendo um movimento associado a revolta imotivada e pejorativa. Geralmente quem defende a liberdade no amor, é recebido como anormal, aquele que pretende acabar com a família e promover algum tipo de libertinagem ou sacanagem.  

Se por um lado ainda é preciso lutar por amor livre, por outro, se reconhece que as experiências de relacionamento que temos hoje, não são livres. Muito pelo contrário, estão cristalizadas com valores distorcidos acerca do que é amor e como demonstra-lo. O machismo e o sexismo permanecem fortes e responsáveis por violências institucionalizadas contra as mulheres e os próprios homens, determinando comportamentos irracionais, criando cativeiros e fortalecendo preconceitos. Toda essa naturalização do amor romântico, descaracteriza o que não seja igual às relações do amor livre ou do poliamor.   

O amor livre não pode ser apontado como única solução para traições ou para a total igualdade entre as pessoas, antes, é preciso avançar sobre o aspecto cultural. Descontruir valores morais é tão ou mais importante que abrir espaço para manifestações de amor livre. Isso porque, se por um lado é possível estabelecer formas abertas e mais humanas de relacionamentos, por outro, é preciso combater a hipocrisia moralista. Por mais natural que possa parecer, o amor livre encontra diversas dificuldades para seu exercício por causa do preconceito. Principalmente porque reconhecer o ser humano na finitude de sua natureza, também significa garantir a mesma liberdade para homens e mulheres.

Viver relações abertas está mais ligado a concepção de amor próprio necessariamente, do que à devoção ao outro. O respeito primeiro começa em si consigo e depois para o outro com o outro, essa compreensão íntima é o que permite estabelecer relações que apesar de não se pautar na exclusividade, cria vínculos mais fortes do que a fidelidade do corpo ou da mente são capazes. O único princípio orientador do amor livre é a solidariedade ao próximo, não importando se estabelece relações parcialmente ou totalmente centralizadas, talvez por isso mesmo, continue sendo uma ideia mais bonita nos livros e imaginário anarquista, do que na própria realidade. 

quarta-feira, dezembro 2

Bobo Alegre



De tantas vezes acreditar ser alguma coisa
E de repente, ser coisa alguma
Dos descasos de uma vida sem sentido
Sem significado definido

Explicar o que não tem justificativa
Falar de resultados sem relevância
Mentir pra deixar de contar
Verdades sem importância

Buscar pra notar a existência sem finalidade
De uma vida que não precisa se comprovar
Que das dores e desamores 
Não é preciso nada combater, apenas viver

E de tanto saber
Perceber que nada sabe
E que o silêncio é sempre a melhor resposta
Para uma pergunta que você achava saber responder

A alegria só percorre corações sem sentido
Isentos de qualquer discernimento
Apátridas de qualquer juízo
Apenas sedentos 

segunda-feira, novembro 9

Solidão, um momento que não passará



A solidão continua amplamente discutida e vivenciada, contudo quase sempre está ligada a depressão e outras síndromes. Estar sozinho é sempre conciliado a um estado de tristeza, de sofrimento, vista como uma doença que precisa ser tratada e combatida. Por outro lado, a necessidade de viver cercado 24 horas por outras pessoas para viver termina limitando a própria autonomia.

Ainda não é fácil encontrar um conceito claro e uniforme sobre o que é a solidão e principalmente, desvincular da concepção de que seja uma doença social. Existem muitas versões para explicar esse controverso estado de espirito, que na verdade, não ‘surge’ em algumas circunstâncias.

Talvez a solidão pareça tão difícil de admitir porque em geral existe medo de reconhecer que não se trata de uma sensação, de que não é um momento, mas uma certeza para a vida inteira. A amizade, o namoro ou mesmo o casamento não são capazes de ocupar o espaço da sua própria presença. É possível se sentir e estar sozinho independente dos relacionamentos que estabelecemos, da mesma forma que ter muita gente próxima não significa manter relações saudáveis e deixar de se sentir sozinho.

Nascemos sozinhos e também morreremos assim, essa é a única certeza que podemos carregar. A natureza nos fez castrados de qualquer ideia permanente, o padrão é a mutação. A todo instante a água muda seu curso, as florestas seu tamanho, espécies desaparecem e tudo continua mudando, obrigando novas experiências de sobrevivência. O que torna a vida uma experiência solitária é a verdade de saber que as mudanças só podem ser vividas por quem passa por elas. Uma vivência individual do início ao fim, sem predisposições ideológicas a nenhuma forma de viver sua própria vida, não existem pessoas feitas por encomenda e ninguém é de ninguém.

Normalmente, quando rodeados da família, de amigos e conhecidos, a vida parece mais leve, é reconfortante o alívio de saber que temos um porto seguro. São nesses momentos que a a solidão pode se mostrar verdadeiramente. Primeiro porque a solidão só se prova com o seu contrário, segundo porque enquanto permanecemos acompanhados não pensamos na solidão ou muito menos que ela é triste, miserável e degradante, simplesmente ignoramos sua existência, como se não estivéssemos sós.

Só nos damos conta da solidão quando todas as pessoas que acostumamos ou desejamos ter ao nosso lado, simplesmente não estão conosco. O nosso grupo íntimo de convivência integra nossa visão de mundo e sua compreensão, em outras palavras, aprendemos a enxergar o mundo com o apoio dessas pessoas, sem elas, aquela leitura de mundo se perde. Se não aprende a criar seu próprio mundo, certamente ficará dependente da leitura de mundo de outras pessoas.

Quando em momentos muito particulares a vida exige guinadas que só podem ser feitas por nós mesmos. Essa responsabilidade de ser preciso tomar decisões sobre o desconhecido, sem ter o apoio de ninguém, obriga a encontrar coragem e ignorar a sensação de fragilidade por estar sozinho. Contudo esse momento não é tão raro quanto imaginamos, é mais corriqueiro do que se pensa. Mesmo assim, os relacionamentos de forma geral tendem a cair na dependência do outro, superestimando uma presença que não pode ocupar o espaço da sua própria vida.

Se só merecemos o que fazemos por merecer, só sai ganhando quem reconhece a solidão como alavanca para a evolução, ao invés de precisar de pessoas para confirmar suas crenças, ideias e opiniões. É preciso criar o próprio mundo e inventá-lo ao próprio sabor, fazer por merecer a própria liberdade e corresponder a responsabilidade inerente. A liberdade está escondida atrás da dor da solidão e responsabilidade, do sacrifício pessoal que cada um escolhe passar. O preço somos nós mesmos que escolhemos, mas é a vida quem exige.


A grande conclusão desse texto é mostrar que não existe o que esperar do outro, só podemos esperar algo de nós mesmos. Que a solidão diferente do que se pensa não é um momento isolado, mas um estado de espírito que não permite cobrar do outro as próprias responsabilidades e carências. As vitórias e derrotas são sempre uma constatação individual que não arrasta nenhum daqueles que escolheremos depositar nossa fé e esperança, porque no fim, estamos todos sozinhos.    

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