sexta-feira, maio 1

Ponto de Ignorância


Existe sempre uma comunicação oculta. Um espaço de silêncio que fala mais do que uma hora de conversa. O olhar, a emoção e o poder da imagem falam mais que por mil palavras. E por mais que já houve um dia em que se tenha sonhado em mudar o Mundo, logo percebe que continuamos sendo como nossos pais, repetindo seus erros e superstições. Vivemos petrificando um caráter e aceitando como verdade um ponto de vista, naturalizando um discurso cheio de pontos cegos, de assuntos que não se pode falar.

O Mundo está cheio desses pontos cegos na comunicação, de assuntos que é proibido falar, aos quais se cultua como expressão do poder. A ignorância é uma dadiva dos que pensam ter mais que os outros, usando seu dinheiro para justificar sua antipatia. Receio dizer mas existem muitos exemplos no Brasil, como reflexo da cultura machista, monocrática, hipócrita, neonazista e arcaica preponderante nos estandartes do poder. Por mais que lutem, as mulheres continuam fazendo o mesmo trabalho que os homens sem serem reconhecidas por isso.

Os hábitos naturalizados brasileiros estão tão cheios de determinações regionais, sociais, religiosas, étnicas, sexuais, ainda tão cheio de preconceito, discriminação e injustiças. Existe muita mentira se passando por verdade e muita verdade transvestida de mentira, por isso temos grandes prejuízos e poucos benefícios, mesmo assim, continuamos varrendo tudo pra debaixo do tapete. Quando finalmente pensamos que o gigante havia acordado, sobreveio uma sensação esquisita e indigesta de imobilização da política nacional e muitos retrocessos.

A política não cresce porque não há espaço para diálogos verdadeiros. Estamos cheios de pontos de ignorância e transmitimos essa indisposição para o debate apreciando o comodismo de ser hipócrita numa sociedade capitalista. Finalmente um sonho primitivo de controle da natureza foi conquistado e com ele muitas doenças, um preço que as futuras gerações não estão dispostas a pagar. Abrimos as portas para as novidades globais e temos esquecido das nossas raízes em nossas terras.

O saber tradicional dos povos antigos, a ancestralidade de nossas terras, as verdades de cada povo. Somente o amor, e pelo amor a verdade, é que poderemos reestabelecer ambientes de coerência, justiça e solidariedade. A simplicidade dessas palavras esconde a dureza de não desistir do amor pelo conforto da ignorância, pela experiência de participar desse Mundo. Esperamos primeiro a violência para depois uma conversa franca, os extremistas estão sempre ignorando o que não querem aceitar, por mais que a verdade brade cada vez mais alto.

Muitas coisas podem ser ignoradas como temos visto e existe somente uma coisa que não pode ser detida, o tempo que acaba de passar e com ele mais um lapso de sua vida enquanto lê esse texto. Precisamos de muito pouco para ser feliz, menos ainda para amar, quem sabe até não seja preciso fazer nada para aceitar a nós mesmos, nossas diferenças e amar uns aos outros, igualmente. Mais uma vez as palavras escondem o que quero dizer - talvez só o tempo possa mostrar o poder e o desafio que é não desistir do amor e assim encontrar a verdade.


Já temos muita tecnologia, conseguimos fazer clones, conhecer o espaço, prolongar a saúde, melhorar o que fazemos para sobreviver, mas agora estamos carentes de significado para a vida. Precisamos entender a revolução do amor para saltar a próxima evolução de nossas vidas. Sem perder a consciência do que somos, não precisamos parecer outra coisa para encontrar o que queremos. O Brasil é dono de uma diversidade indescritível e igualmente capaz de respeitar e deixar de tolerar o que não para de ignorar.          

segunda-feira, abril 13

A Universidade e a Desconstrução dos Sujeitos



Funcionamos como uma esponja que suga toda água que esta por perto. Interpretamos e lidamos com o mundo da forma como nos ensinam a fazer. Analisamos e nos planejamos baseados nas formas que nos moldaram a pensar e interpretar. Dessa forma, acabamos nos esquecendo de quem somos, de ser quem realmente somos, abrindo espaço para uma verdade mentirosa.

As Universidades se tornaram o canal de formação dos profissionais, onde somos forçados a abrir mão do que sabemos, para incorporar o que está escrito nos livros. De nada importa nossas experiências, nossa intuição, nossa história como ser humano. Somos preparados para ser uma engrenagem do sistema, que continua reproduzindo as desigualdades sociais, as pobrezas e a existência das minorias. Esse processo de preparo tende a nos distanciar de quem realmente somos.

Os meios acadêmicos deixaram de ser científicos, abandonamos a paixão pelo conhecimento em troca de ocupar uma função profissional que já existe. Não há tempo para dúvidas que desviem do que precisa ser ensinado, tudo que não colabora para a absorção das novas técnicas está fora do alcance da ciência do capital.

Mais forte que os equívocos culturais passados pela família de geração em geração, é o poder que a formação da Universidade têm de nos tornar seres sem consciência do que fazemos parte. Ocultando a verdadeira função da vida que é se sentir pleno e realizado. Toda a educação se molda pela propriedade, e a Universidade desconstrói as pessoas para ser recipientes capazes de dar continuidade a preservação e desenvolvimento dessa concepção mercadológica que a vida começa a ter.

Vivemos em torno da construção de uma carreira. De construir nossa própria marca sobre esse mundo, ajudando a desenvolver novas formas de propriedade. As emoções e sentidos mais profundos da vida são reduzidos e banalizados em prol de algo que parece maior que nós mesmos, mas que não é verdade. Continuamos a construir esfinges, sacrificando milhares de vidas, para deixar legados de nossa existência.  

Já fomos engolidos pelos nossos próprios sonhos e desejos. Os espaços que deveriam fazer florescer o gosto pela vida e pela descoberta, já traz respostas prontas para serem executadas. Um ambiente onde quem ensina não tem interesse de oferecer algo mais que não esteja nos livros. Os únicos exemplos de profissionais bem sucedidos, remetem a pessoas que se tornaram egoístas, cansados de descobrir os segredos da vida, vencidos pelo desejo de apenas ter mais e mais.   


Ainda há chance de ser pessoa num mundo de indivíduos. Contudo essa resposta não está nos livros, nem é segredo da cabeça dos mais estudiosos. As respostas já estão em si mesmo. Numa percepção da vida muito particular e única, ao mesmo tempo em que é universal e cheia de amor. Mesmo com todas as discordâncias que possamos encontrar e do quanto possamos ser chamados de loucos. É necessário discordar ainda que tarde, desconcertando o jeito capitalista como nos educam. 

quinta-feira, março 19

‘A paz que eu não quero conservar’*



Vivemos uma guerra da informação. Várias lutas já se consolidaram pela democratização dos meios de comunicação. Por uma mídia livre, por novas leis regulatórias e mais próximas do que realmente alcança a opinião pública. Os atuais meios de comunicação publicam opiniões sobre fatos. Um ciclo que se resume a imprimir padrões de análise falaciosos sobre as reais notícias.

As últimas informações correntes dão conta de que os Estados Unidos, por meio da NSA, monitora presidentes da América Latina e de outras várias partes do mundo. Investigam ligações, informações pessoais dos presidentes e notícias que valem milhões no mercado econômico. Por exemplo, a notícia de que uma empresa vai ter falência decretada pode valer milhões e levar incontáveis pessoas a sacar seus proveitos antes.

A petrolífera brasileira Petrobras também é alvo de espionagem, assim como outras várias grandes empresas. Informações que podem desencadear reações inesperadas de todas as partes. Muitas dessas informações provavelmente subsidiam estratégias políticas de controle econômico para promoção de cartéis velados.

Essa conduta de controle em nome da ‘segurança’ coage cada vez mais expressões públicas e cria uma ditadura digital. Mensagens privadas, localização e hábitos pessoais se tornaram uma forma de controle pelas empresas que cada vez mais comercializam informações pessoais. Os navegadores mais populares se tornaram um programa que grava hábitos e conteúdos pessoais. Uma gestora da Google chegou a afirmar que é possível dizer o que exatamente você poderia estar fazendo ou pensando agora.

Todos os sistemas se integraram formando um espectro de controle sobre cada um de nós. As redes sociais se misturaram com a vida real, os bancos se fundiram com agências aéreas, universidades, indústrias e hoje financiam grande parte das candidaturas políticas em várias partes do mundo. A Economia Verde bate à porta e promete capitalizar de vez o acesso a recursos naturais básicos, como a água por exemplo.  

A pretexto de combater malfeitores os governos causaram a ditadura velada, o politicamente correto e o ser humano normal. Os meios de entretenimento e os canais de televisão já são tidos como outra dimensão da realidade, mas mesmo com esse ar de fantasia muitas pessoas são controladas pela falta de opção. As hegemonias do capital estão cada vez mais unidas, fortalecendo cada vez mais uma lógica irracional de consumo e alienação política.  
* Trecho de Minha Alma - O Rappa / Marcelo Yuka

     

quarta-feira, fevereiro 11

Não é Normal ser Comum



Não há ninguém igual a ninguém. Nem mesmo gêmeos são a mesma pessoa. Cada indivíduo nasce com uma visão particular da realidade. Por mais óbvio que isso possa parecer, cada vez mais a diferença perde espaço para que é comum. Em tempos de globalização, aumenta a padronização e diminui a diversidade.
 
Mesmo a diversidade se tornou uma característica que tece a diferença com indiferença. As ovelhas negras tão cultuadas, estão sendo sacrificadas. Com tantos remédios e técnicas de condicionamento, até os esquisitos estão se convertendo em pessoas pseudo normais. Os diferentes estão sofrendo represália do sistema.
  
Todos que almejam liberdade e buscam sua própria verdade estão sendo compactados. A diferença foi apadrinhada como uma tolice, uma perca de tempo que gera o atraso do desenvolvimento. Como sempre, tem surgido uma visão redentora que tenta, segundo seus seguidores, pelo bem geral da humanidade, colocar todo mundo nos trilhos com o rolo compressor da igualdade.    

O que é normal não é comum, as diferenças precisam ser notadas para haver respeito. É comum pensar no bem da comunidade isolando quem não se enquadra, assim, como se algumas pessoas simplesmente não fossem normais. Vivemos sob o peso de seguir um padrão de comportamento, ação e reação, uma resposta da globalização a todos nós.

É uma verdade bastante traumática aceitar que somos diferentes e iguais ao mesmo tempo. Ainda vivemos tão iludidos com a ideia de uma comunidade onde as pessoas sejam iguais, que as diferenças normais a todos têm sido penalizadas. Enquanto isso brotam estereótipos gerando discriminação do que não é comum.

A violência, o uso da força e as piadinhas pejorativas e maldosas que culpam as pessoas por serem quem elas são, fazendo-as se sentirem erradas, sujas e deturpadas. Criam tabus, abrindo vazão às coisas que não existem, complicando o que sempre foi normal.

Sempre houve tentativas de padronizar a sociedade, custando a vida de milhares de pessoas. Pior que o nazismo, tem sido o capitalismo, que estabelece a padronização como um valor moral, comportamental e de superioridade.

Cada pessoa possui um jeito próprio de se expressar e fazer coisas habituais, mas isso quase nunca é respeitado. E começa dentro de casa, no seio familiar. Os pais têm seus filhos para cativar suas próprias vaidades. Dizem que se trata de amor, mas não deixam que seus filhos expressem suas vontades.   

Numa sociedade que valoriza a capacidade de se tornar semelhante do outro, nem sempre as diferenças são desejadas ou esperadas. A única coisa que se espera é a reinvenção do que se vive atualmente. Nenhuma novidade, sem espaço para criatividade.

Ultimamente nada que é novo, é inovador. O novo já nasceu velho e o que temos hoje não é capaz de implodir a estrutura do habitual. Vivemos o regime do sistema que controla para replicar um mundo aparentemente livre.

Os homens do capital têm controlado os recursos da vida e exigido que se continue a repetir o que é comum em troca da sobrevivência. Obrigando que eu e você sejamos repressores de nós mesmos para ter o direito de viver. Esse torturante processo de repetir as mesmas coisas em nome da comunidade, tem enlouquecido as pessoas sãs.

Se há algo que precisamos perceber é que normal é ser diferente. Simplesmente é a natureza da vida. Nada mais. Temos negado a normalidade humana na sua diversidade nada padronizada, quando na verdade a realidade reflete o contrário, somos multifacetados. Nada parecidos e ao mesmo tempo, semelhantes.

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